Impacto Das Redes Sociais Na Saúde Mental De Universitários Brasileiros


Há uma cena cada vez mais comum dentro das universidades brasileiras: estudantes sentados lado a lado, cada um com o celular nas mãos, enquanto uma aula acontece ao fundo. O professor fala, os slides avançam, trabalhos se acumulam e as notificações continuam chegando. Em poucos segundos, o estudante pode sair de uma explicação sobre uma disciplina para um vídeo de poucos segundos, uma conversa no WhatsApp, uma publicação no Instagram ou uma sequência interminável de conteúdos recomendados pelo algoritmo. Quando percebe, voltou à aula, mas sua atenção já não está completamente ali.

Esse cenário não significa que as redes sociais sejam necessariamente inimigas da vida acadêmica. Pelo contrário. Elas mudaram profundamente a maneira como os universitários estudam, se comunicam e constroem oportunidades. Grupos de WhatsApp e Telegram facilitam a comunicação entre colegas, conteúdos educativos circulam pelo Instagram, YouTube e TikTok, professores e pesquisadores compartilham conhecimento e estudantes podem encontrar comunidades que oferecem apoio, materiais de estudo e até oportunidades profissionais. Em um país cada vez mais conectado, ignorar essas ferramentas seria praticamente impossível.

Segundo a TIC Domicílios 2024, realizada pelo Cetic.br/NIC.br, 81% dos usuários de internet no Brasil utilizaram redes sociais. A mesma pesquisa mostra a dimensão da presença digital na vida cotidiana: 92% dos usuários enviaram mensagens instantâneas e 82% realizaram chamadas de voz ou vídeo. Não estamos falando, portanto, de uma tecnologia periférica. As redes sociais já fazem parte da estrutura de comunicação da sociedade brasileira.

O problema começa quando a ferramenta deixa de ser utilizada pelo estudante e passa, silenciosamente, a utilizar o estudante.

A universidade já é, por natureza, uma fase marcada por mudanças. Muitos jovens estão saindo da adolescência, construindo independência, enfrentando dificuldades financeiras, conciliando estudo e trabalho, estabelecendo novas relações e tentando descobrir qual será seu lugar no mercado profissional. Ao mesmo tempo, são submetidos a uma cultura de desempenho que parece exigir produtividade constante: boas notas, estágios, cursos, iniciação científica, eventos, certificados, networking, idiomas, currículo e, agora, também uma presença digital capaz de demonstrar que estão fazendo tudo isso.

É justamente nesse ponto que as redes sociais podem deixar de ser apenas espaços de entretenimento e comunicação para se transformar em vitrines permanentes de comparação.

Nas redes, raramente vemos a universidade como ela realmente é. Vemos o estudante que conseguiu a aprovação, a formatura, o estágio, a viagem, a bolsa de pesquisa, o intercâmbio, o jaleco impecável, o currículo cheio de certificados e a fotografia sorrindo após uma apresentação. Raramente vemos a madrugada estudando para uma prova que deu errado, a reprovação, a dificuldade para pagar o transporte, o medo de não conseguir concluir o curso ou a sensação de não ser bom o suficiente.

O estudante passa então a comparar o seu bastidor com o palco dos outros.

Um estudo publicado em 2025 na revista Psicologia USP, realizado com universitárias da área da saúde, encontrou justamente uma relação importante entre mídias sociais, idealizações, expectativas e uma lógica ampliada de desempenho e produtividade. Os pesquisadores também identificaram a emergência de ansiedade e uma desconexão entre aquilo que se pensa, sente, diz e faz.

Essa conclusão merece atenção porque revela que o problema não está simplesmente em "usar muito o celular". Existe algo mais profundo acontecendo. A rede social apresenta ao jovem uma ideia de vida universitária permanentemente produtiva, interessante e bem-sucedida. E quando a realidade não corresponde àquela imagem, pode surgir a sensação de fracasso.

O estudante não está apenas estudando. Ele sente que deveria estar estudando mais.

Não está apenas construindo uma carreira. Sente que deveria estar muito mais avançado.

Não está apenas vivendo sua juventude. Começa a acreditar que está ficando para trás, (e eu me encaixo nesse contexto, pois passo por essas sensações todos os dias.) 

E talvez uma das maiores armadilhas das redes sociais seja exatamente essa: transformar a vida em uma espécie de competição que ninguém declarou oficialmente que estava acontecendo.

Quando a distração começa a interferir na aprendizagem

Existe ainda um problema mais silencioso: a fragmentação da atenção.

As redes sociais foram construídas para disputar nosso olhar. Uma notificação chama outra. Um vídeo termina e outro começa. Uma publicação leva a outra. O cérebro recebe constantemente novos estímulos, enquanto estudar exige justamente o contrário: concentração prolongada, tolerância ao tédio, leitura, repetição e capacidade de permanecer diante de um conteúdo mesmo quando ele não é imediatamente interessante.

Aprender nem sempre é prazeroso.

Um estudante de Biomedicina (eu), Direito, Engenharia, Enfermagem, Medicina, Letras ou qualquer outra área precisa passar horas diante de textos difíceis, conceitos complexos e conteúdos que não oferecem a recompensa instantânea de um vídeo curto. A aprendizagem universitária exige tempo para compreender, errar, revisar e amadurecer uma ideia.

As redes sociais funcionam em outra lógica.

Elas oferecem velocidade.

A universidade exige profundidade.

Essa diferença é fundamental. Não significa que assistir a um vídeo de dois minutos seja prejudicial. Muitas vezes, ele pode explicar determinado conteúdo de maneira excelente. O problema aparece quando o estudante perde a capacidade de permanecer concentrado em uma atividade por mais tempo porque seu cérebro se acostumou a estímulos rápidos e sucessivos.

A própria Organização Mundial da Saúde já chama atenção para os efeitos do uso problemático das redes sociais entre jovens. Em relatório divulgado pela OMS Europa, o uso problemático foi associado a menor bem-estar mental e social, além de menos sono e horários mais tardios para dormir, fatores que podem repercutir também no desempenho acadêmico. Ao mesmo tempo, a organização reconhece que o uso responsável pode fortalecer apoio entre pares e conexões sociais.

Essa dualidade é importante. A discussão não deveria ser "redes sociais fazem mal ou fazem bem?". A pergunta mais adequada é: em que condições elas ajudam e em que condições começam a prejudicar?

O sono também entra nessa equação

Existe uma relação particularmente preocupante entre redes sociais, sono e saúde mental.

Um estudo publicado em 2024 nos Cadernos de Saúde Pública analisou 2.823 universitários brasileiros e investigou justamente a relação entre tempo de uso de mídias sociais, dependência de mídias sociais, qualidade do sono e sintomas depressivos. Os resultados apontaram associação entre maior tempo de uso e sintomas depressivos, com a dependência das mídias sociais e a qualidade do sono atuando como mediadores importantes.

É fácil reconhecer o comportamento.

O estudante deita para dormir e pega o celular "só por alguns minutos". Responde uma mensagem. Abre uma rede social. Assiste a um vídeo. Depois outro. Quando percebe, passou uma hora.

No dia seguinte, precisa acordar cedo para assistir à aula. Chega cansado. Tem dificuldade de concentração. Precisa estudar novamente aquele conteúdo que não conseguiu absorver. Acumula tarefas. Fica ansioso.

E, diante da ansiedade, volta para o celular.

Forma-se um ciclo.

O celular pode ser usado para escapar justamente das consequências que o próprio excesso de uso ajudou a produzir.

Mas seria injusto responsabilizar apenas as redes

Existe um erro recorrente nesse debate: colocar toda a responsabilidade sobre o jovem.

"É só desligar o celular."

Não é tão simples.

A saúde mental dos universitários é influenciada por diversos fatores. Pressão acadêmica, dificuldades financeiras, necessidade de trabalhar, problemas familiares, insegurança profissional, falta de estrutura, distância da família, dificuldades de relacionamento e ausência de apoio psicológico também fazem parte dessa realidade.

A própria legislação brasileira reconheceu que a permanência na universidade depende de condições que ultrapassam a sala de aula. A Lei nº 14.914/2024 instituiu a Política Nacional de Assistência Estudantil (PNAES), incluindo entre suas ações o Programa de Atenção à Saúde Mental dos Estudantes. A política busca, entre outros objetivos, reduzir retenção e evasão e melhorar as condições de permanência dos estudantes.

E isso é fundamental.

Não adianta dizer ao universitário para cuidar da saúde mental se ele precisa trabalhar oito horas por dia, estudar à noite, enfrentar dificuldades financeiras e ainda encontrar uma universidade que não oferece suporte suficiente.

Em 2024, o Tribunal de Contas da União apontou fragilidades na gestão, distribuição de recursos e monitoramento do PNAES em auditoria que avaliou 69 universidades federais.

Portanto, falar de saúde mental universitária também significa falar de permanência, condições econômicas, assistência estudantil e estrutura institucional.

As redes sociais podem agravar determinados problemas, mas não são responsáveis por todos eles.

E existe um lado positivo que não pode ser ignorado

Seria contraditório defender uma universidade saudável propondo simplesmente que os estudantes abandonem as redes sociais.

Elas também democratizaram o acesso ao conhecimento.

Um estudante que não consegue comprar determinado livro pode encontrar uma aula, uma palestra ou um material educacional gratuito. Uma pessoa isolada geograficamente pode participar de uma comunidade acadêmica. Um professor pode compartilhar pesquisas. Um pesquisador pode divulgar seu trabalho. Um estudante pode encontrar uma oportunidade de estágio ou descobrir uma área profissional que sequer conhecia.

As redes também podem oferecer pertencimento.

Para um jovem que, se sente sozinho dentro da universidade, encontrar outras pessoas enfrentando dificuldades semelhantes pode ser importante. A própria OMS reconhece que o uso responsável das redes pode favorecer apoio entre pares e conexões sociais.

No Brasil, iniciativas digitais também podem ampliar o acesso ao cuidado. Em julho de 2026, o Ministério da Saúde anunciou a integração do projeto Pode Falar ao aplicativo Meu SUS Digital. A plataforma oferece acolhimento, escuta e orientação em saúde mental para pessoas de 13 a 24 anos.

Isso mostra que o mesmo ambiente digital que pode contribuir para o sofrimento também pode ser utilizado como instrumento de cuidado.

A tecnologia, portanto, não é o vilão.

O problema é quando perdemos o controle sobre a maneira como a utilizamos.

Precisamos ensinar o jovem a usar, e não simplesmente proibir

Talvez a discussão mais urgente não seja sobre retirar o celular das mãos dos universitários, mas sobre ensinar uma nova forma de alfabetização: a alfabetização digital e emocional. O jovem precisa aprender que aquilo que, aparece na tela é uma seleção, não a realidade inteira.

Precisa compreender que algoritmos são projetados para manter sua atenção.

Precisa reconhecer sinais de uso problemático.

Precisa aprender a estabelecer limites.

Precisa entender que descansar não significa fracassar.

E precisa descobrir que uma carreira não é construída apenas pela quantidade de certificados publicados no Instagram.

A OMS também defende o fortalecimento da alfabetização digital para que os jovens consigam navegar de maneira mais segura pelo ambiente digital e aproveitar seus benefícios reduzindo os riscos.

Isso deveria fazer parte também da própria universidade.

Não basta ensinar o estudante a produzir um trabalho científico. É preciso ensiná-lo a pesquisar informações confiáveis em meio à avalanche de conteúdos digitais. Não basta falar sobre produtividade. É preciso falar sobre limites, descanso e saúde mental. Não basta incentivar networking. É preciso explicar que relações humanas não podem ser reduzidas ao número de seguidores ou conexões.

Talvez precisemos reaprender a estar presentes

Existe uma ironia na sociedade hiperconectada: nunca tivemos tantos meios para conversar e, ainda assim, muitas pessoas relatam sentir-se sozinhas. O universitário pode estar em dezenas de grupos, acompanhar centenas de pessoas e receber mensagens durante todo o dia. Mas isso não significa necessariamente que esteja construindo vínculos profundos.

A experiência universitária deveria ser muito mais do que assistir às aulas e entregar trabalhos.

É conversar no corredor.

É estudar com alguém na biblioteca.

É participar de um projeto.

É discutir uma ideia depois da aula.

É fazer amizade.

É discordar.

É descobrir uma profissão.

É errar.

É experimentar.

É viver.

Quando toda essa experiência passa a ser mediada pela tela, existe o risco de perder justamente aquilo que a universidade tem de mais importante: o encontro humano. As redes sociais podem aproximar quem está distante, mas não deveriam substituir completamente quem está ao nosso lado.

Podem ensinar, mas não deveriam substituir a curiosidade.

Podem inspirar, mas não deveriam definir o valor de uma pessoa.

Podem divulgar oportunidades, mas não deveriam transformar a vida acadêmica em uma competição permanente.

E podem oferecer acolhimento, mas não deveriam ser o único lugar onde um jovem encontra alguém disposto a ouvi-lo.

A questão, no fim, não é abandonar as redes sociais. É recuperar a autonomia sobre elas.

Precisamos de universitários conectados, sim. Mas também precisamos de universitários capazes de desconectar. Porque uma geração que consegue acessar o mundo inteiro pelo celular também precisa aprender a olhar para a própria realidade sem compara constantemente com a realidade editada de alguém.

A universidade deveria ser um espaço para formar profissionais, mas também pessoas capazes de pensar criticamente, conviver, criar vínculos, lidar com frustrações e construir seus próprios caminhos.

E talvez o maior desafio desta geração não seja aprender a usar a tecnologia.

Seja aprender quando parar de usá-la para conseguir continuar vivendo aquilo que acontece fora da tela.










Fontes principais utilizadas

SciELO / Cadernos de Saúde Pública (2024) — estudo brasileiro com 2.823 universitários, investigando uso de mídias sociais, dependência, sono e sintomas depressivos. �

SciELO +1

SciELO / Psicologia USP (2025) — pesquisa sobre mídias sociais e processo saúde-doença entre universitárias, relacionando redes, idealização, produtividade e ansiedade. �

SciELO

Cetic.br/NIC.br — TIC Domicílios 2024 — dados nacionais sobre utilização da internet e redes sociais no Brasil. �

Cetic.br +1

Organização Mundial da Saúde (OMS) — evidências sobre uso problemático de redes sociais, sono, bem-estar, desempenho acadêmico e também os potenciais benefícios das conexões digitais. �

Organização Mundial da Saúde

Ministério da Educação / Lei nº 14.914/2024 — Política Nacional de Assistência Estudantil e criação do Programa de Atenção à Saúde Mental dos Estudantes. �

Planalto +1

Tribunal de Contas da União (TCU) — auditoria sobre a implementação da assistência estudantil nas universidades federais. �

Portal TCU

Ministério da Saúde (2026) — integração do projeto Pode Falar ao Meu SUS Digital, ampliando o acesso de jovens ao acolhimento em saúde mental. �

Comentários