O Conto da Aia e a realidade que se aproxima: quando o controle sobre as mulheres deixa de ser ficção
Por Samara Melo | 14 de Maio de 2026
O Conto da Aia e a realidade que se aproxima: quando o controle sobre as mulheres deixa de ser ficção
Por muito tempo, distopias foram vistas apenas como exageros criados para entreter. Mundos fictícios onde governos autoritários controlavam corpos, pensamentos e direitos pareciam distantes da realidade moderna. Mas basta assistir à série The Handmaid's Tale — conhecida no Brasil como O Conto da Aia — para perceber que o terror da ficção nasce justamente daquilo que já existe na sociedade. A obra não inventa a opressão feminina; ela apenas amplia estruturas que sempre estiveram presentes no mundo real.
Na série, mulheres são privadas de liberdade, educação, autonomia financeira e até mesmo do direito de decidir sobre o próprio corpo. Seu valor é reduzido à capacidade de gerar filhos. Elas não podem trabalhar, possuir dinheiro, ler ou ocupar espaços de poder. Tudo é controlado por um governo que usa a religião como ferramenta de dominação. O mais assustador é perceber que muitas dessas práticas já aconteceram — e ainda acontecem — em diferentes partes do mundo.
A história humana é marcada pelo controle sistemático sobre as mulheres. Durante séculos, fomos ensinadas a ocupar espaços pequenos, silenciosos e submissos. O patriarcado não nasce apenas na violência explícita, mas também nas pequenas estruturas sociais que normalizam o machismo: salários menores, feminicídio, culpabilização da vítima, objetificação do corpo feminino e a constante tentativa de limitar nossa liberdade. Quando líderes políticos e religiosos usam discursos morais para decidir o que mulheres podem vestir, estudar, fazer ou pensar, a ficção deixa de parecer tão distante.
O crescimento de discursos extremistas e conservadores em várias partes do mundo levanta questionamentos importantes. Em muitos países, direitos femininos estão sendo atacados em nome da “família tradicional”, da moral ou da religião. O controle sobre o corpo feminino voltou ao centro dos debates políticos. E isso revela um perigo silencioso: quando a sociedade aceita pequenas perdas de liberdade, abre espaço para perdas muito maiores. Nenhuma opressão começa de forma abrupta. Ela cresce lentamente, alimentada pelo medo, pela polarização e pelo silêncio coletivo.
Nesse contexto, a sororidade surge como resistência. Sororidade não é apenas amizade entre mulheres; é consciência coletiva. É entender que a dor de uma mulher nunca pertence somente a ela. Em O Conto da Aia, são justamente os laços femininos que mantêm viva a esperança de sobrevivência. Mulheres ajudam umas às outras a fugir, resistir e preservar sua humanidade em meio ao horror. E talvez essa seja uma das mensagens mais poderosas da série: sistemas opressores prosperam quando mulheres são colocadas umas contra as outras.
A pergunta que permanece é inquietante: será que parte da sociedade ainda enxerga mulheres apenas como corpos úteis para servir, obedecer e reproduzir? O aumento dos casos de feminicídio, assédio e violência doméstica mostra que muitas mulheres continuam morrendo simplesmente por existir em uma sociedade estruturalmente machista. O medo faz parte da rotina feminina. Medo de andar sozinha, de denunciar, de falar, de rejeitar, de ocupar espaços.
Combater o machismo estrutural, porém, não significa criar uma guerra entre homens e mulheres. Significa questionar estruturas históricas que naturalizam desigualdades. A mudança começa pela educação, pela representatividade feminina em espaços de poder, pelo incentivo à independência financeira e pela criação de políticas públicas que protejam mulheres da violência. Também exige coragem coletiva para enfrentar discursos que tentam romantizar submissão como virtude.
O mundo ainda não é Gilead, mas algumas sementes desse sistema já existem entre nós. E talvez o maior alerta de O Conto da Aia seja justamente este: sociedades autoritárias não surgem do nada. Elas nascem quando pessoas comuns acreditam que determinados grupos merecem ter menos direitos que outros. Por isso, defender os direitos das mulheres não é apenas uma pauta feminina — é defender a própria liberdade humana.

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