O NORDESTE NÃO É O PROBLEMA DO BRASIL: A XENOFOBIA QUE SE REVELA APÓS AS ELEIÇÕES



Mais uma vez, após as eleições, o povo nordestino se torna alvo de ataques, insultos e manifestações de xenofobia por causa de suas escolhas políticas. Mais uma vez, brasileiros tentam transformar uma região inteira em culpada por um resultado eleitoral, como se milhões de pessoas não tivessem o direito de pensar, escolher e exercer a própria cidadania. O que deveria ser um momento de exercício democrático acaba se tornando, para muitos nordestinos, uma demonstração dolorosa de preconceito regional.

O problema não está na divergência política. Em uma democracia, discordar é legítimo, criticar candidatos é necessário e questionar propostas faz parte da participação cidadã. O problema começa quando a discordância deixa de ser direcionada a um projeto político e passa a atingir a origem, a identidade, a inteligência e a dignidade de um povo. Quando alguém utiliza a pobreza como insulto, associa o nordestino à ignorância ou sugere que cidadãos de determinada região não deveriam ter o mesmo direito ao voto, não estamos mais diante de uma simples discussão política. Estamos diante de uma manifestação de preconceito.
E os números recentes mostram a dimensão desse problema.
Segundo reportagem publicada pelo UOL em 8 de outubro de 2026, um levantamento da Ativaweb DataLab identificou 32,8 milhões de menções, links e compartilhamentos relacionados ao Nordeste e aos nordestinos nas primeiras 72 horas após o primeiro turno das eleições presidenciais. Desse total, 82,2% foram classificados pelo estudo como manifestações de tom crítico ao voto da região, correspondendo a aproximadamente 27 milhões de registros hostis. O monitoramento abrangeu Facebook, Instagram, TikTok, X, Kwai e comentários do YouTube.

É preciso interpretar esses números com responsabilidade: os 82,2% não devem ser automaticamente entendidos como uma contagem de manifestações individualmente comprovadas como xenofóbicas. O percentual se refere à classificação utilizada pelo levantamento para identificar conteúdos críticos ao voto nordestino. Ainda assim, a dimensão desse volume revela um ambiente preocupante, no qual a escolha política de uma população inteira se transforma em motivo para hostilidade coletiva.
E não se trata de um fenômeno isolado ou inesperado.

2022 Quando A Escolha Política Virou Motivo De Humilhação

Nas eleições presidenciais de 2022, o país já havia testemunhado uma onda semelhante de ataques. Uma pesquisa desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), divulgada em janeiro de 2026, identificou um crescimento de 821% no discurso de ódio contra nordestinos nas redes sociais durante a eleição de 2022. O estudo analisou 282 milhões de publicações no Twitter, atual X, entre julho e dezembro daquele ano. A pesquisa identificou o aumento da associação entre a palavra “nordestino” e termos pejorativos, especialmente durante o período eleitoral.

Outro levantamento, realizado pelo InternetLab, analisou publicações do dia seguinte ao primeiro turno de 2022. Na amostra estudada, estimou-se que 19,4% dos tuítes relacionados ao Nordeste e aos nordestinos continham ataques e ofensas. Entre os conteúdos identificados, estavam associações preconceituosas com pobreza, ignorância e suposta incapacidade de compreender a política. 

Esses dados revelam algo que precisa ser discutido com seriedade: a xenofobia regional não surge do nada no dia da eleição. Ela encontra terreno em estereótipos históricos, desigualdades sociais e na ideia equivocada de que determinadas regiões seriam intelectualmente superiores a outras.

O Nordeste, historicamente marcado pela concentração de renda, pela desigualdade no acesso a serviços públicos e pelos efeitos das secas em diferentes territórios, é frequentemente reduzido às suas dificuldades. Ignoram-se as políticas públicas, a capacidade de organização de sua população, a produção intelectual e a diversidade econômica de seus nove estados.

É uma forma conveniente de preconceito: destacar as dificuldades de uma população para desqualificá-la, mas silenciar suas conquistas quando elas contradizem a narrativa construída sobre ela.

O Nordeste Também É Excelência Acadêmica
Se alguém ainda acredita que o Nordeste é sinônimo de atraso intelectual, os resultados de suas instituições de ensino e de seus estudantes merecem atenção.
Na 18ª Olimpíada Nacional em História do Brasil, realizada em 2026, as equipes nordestinas conquistaram o maior número de medalhas na fase final. O Ceará obteve 26 medalhas, a Bahia conquistou 10, Pernambuco ficou com cinco, a Paraíba com quatro, o Rio Grande do Norte com três, o Piauí com duas, e Alagoas e Maranhão com uma cada. Somados, esses resultados representam 52 medalhas para equipes de oito estados nordestinos. A distribuição divulgada pela organização não registra medalhistas de Sergipe nessa edição.

Esse resultado é expressivo não apenas pelo número de medalhas, mas pelo que representa: estudantes e professores que pesquisam, interpretam documentos, debatem a história do país e desenvolvem pensamento crítico.
O Ceará, em particular, também se tornou conhecido nacionalmente pela preparação de estudantes para processos seletivos altamente competitivos, inclusive o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Entretanto, é importante reconhecer que os resultados de vestibulares não representam, isoladamente, a qualidade de toda a rede de ensino, nem permitem atribuir todas as aprovações exclusivamente aos estudantes cearenses, pois instituições preparatórias recebem alunos de diferentes estados.
A defesa da educação nordestina não precisa de exageros para ser convincente. Os resultados concretos, o trabalho de professores, o esforço dos estudantes e a produção científica já constituem argumentos suficientes.
O mesmo vale para as universidades federais, os institutos federais, os pesquisadores, os profissionais da saúde e os milhares de estudantes que transformam suas realidades por meio do conhecimento.
O nordestino não precisa provar que é inteligente para merecer respeito. A educação é uma evidência de suas potencialidades, não uma condição para que seus direitos sejam reconhecidos.
Energia limpa, cultura e contribuição nacional
A importância do Nordeste para o Brasil também pode ser observada em sua participação na transformação da matriz energética. A região possui condições naturais favoráveis à geração eólica e solar e ocupa posição estratégica na expansão dessas fontes renováveis.
De acordo com o Balanço Energético Nacional 2026, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética, a geração eólica brasileira atingiu 116,5 TWh em 2025, enquanto a geração solar fotovoltaica chegou a 88,1 TWh. Embora esses números sejam nacionais, a expressiva presença dos empreendimentos eólicos e solares no Nordeste evidencia a importância regional para essa transformação. 

A região também é patrimônio cultural, artístico e intelectual do país. Da literatura de cordel à música popular, do repente à literatura contemporânea, do cinema à produção audiovisual, das tradições indígenas e afro-brasileiras às manifestações religiosas, o Nordeste contribui para a construção da identidade brasileira e para a projeção da cultura nacional no exterior.
A cultura nordestina não é um elemento periférico da identidade brasileira. Ela está presente naquilo que o Brasil canta, escreve, representa, celebra e apresenta ao mundo.

Reduzir essa região à pobreza é ignorar sua capacidade produtiva, sua criatividade, sua ciência, sua história e a diversidade de seus povos.

Também seria equivocado afirmar que o Nordeste, sozinho, construiu o Brasil ou que as demais regiões não possuem contribuições relevantes. O país é resultado da participação de diferentes povos, territórios e processos históricos. O problema não é reconhecer a importância de uma região, mas usar a origem geográfica para estabelecer uma hierarquia entre cidadãos.

O Brasil não precisa escolher entre reconhecer o Nordeste e reconhecer o restante do país. Precisa compreender que nenhuma região deve ser tratada como inferior.

A Democracia Não Pode Ter Cep

Existe uma contradição profunda em defender a democracia apenas quando o resultado eleitoral corresponde às próprias preferências.
O voto é um direito individual, secreto e protegido pela Constituição. Cada cidadão tem liberdade para escolher seus representantes segundo suas convicções, seus interesses, sua experiência de vida e sua avaliação das propostas apresentadas.

Nenhuma pessoa perde o direito à cidadania por votar em determinado candidato. Nenhum estado deve ser tratado como inimigo porque a maioria de seu eleitorado fez uma escolha diferente daquela predominante em outras regiões.

A democracia não exige unanimidade. Exige respeito às regras, reconhecimento da legitimidade do processo eleitoral e disposição para conviver com a divergência.

Quando uma pessoa critica um candidato, ela exerce sua liberdade de expressão. Quando transforma milhões de eleitores em alvo de insultos por terem nascido em determinada região, ultrapassa o debate político e alimenta a discriminação.
É necessário compreender também que o Nordeste não pensa de maneira uniforme. Existem eleitores conservadores, progressistas, liberais, socialistas, religiosos, ateus e pessoas que não se identificam com nenhuma dessas classificações. Os nove estados possuem diferenças sociais, culturais e políticas. Tratar todos os nordestinos como se compartilhassem uma única ideologia é reproduzir a mesma generalização que sustenta o preconceito.

O voto de um nordestino não representa todos os nordestinos. Assim como o voto de um paulista, de um mineiro ou de um gaúcho não representa todos os habitantes desses estados.
A escolha política de uma pessoa pode ser questionada, mas sua origem não deve ser utilizada como instrumento de humilhação.

O Preconceito Regional Precisa Deixar De Ser Tratado Como Brincadeira

Parte da xenofobia se manifesta por meio de ofensas explícitas. Outra parte aparece disfarçada de humor, ironia ou suposta superioridade econômica e intelectual.
Piadas que associam nordestinos à ignorância, à preguiça ou à dependência de benefícios sociais reforçam estereótipos que atingem pessoas reais. São trabalhadores, estudantes, professores, cientistas, profissionais da saúde, empreendedores, artistas e famílias que passam a ser julgados por sua origem, independentemente de sua trajetória individual.
É preciso questionar também a tentativa de transformar políticas sociais em argumento para desumanizar quem vive em regiões economicamente vulneráveis. Benefícios sociais não anulam a cidadania, não tornam ninguém intelectualmente inferior e não retiram de seus beneficiários o direito de participar da vida política.
O combate à desigualdade deve ser uma preocupação nacional. Não uma arma utilizada para constranger os mais pobres.
As plataformas digitais também precisam enfrentar os discursos discriminatórios de acordo com suas regras e com a legislação aplicável. Ao mesmo tempo, a sociedade deve aprender a distinguir crítica política, manifestação legítima de opinião e ataques dirigidos a grupos por sua origem regional.
A liberdade de expressão é indispensável à democracia, mas não deve servir de justificativa automática para toda forma de discriminação.

O Nordeste Não Precisa Pedir Licença Para Existir

Os dados de 2022 e de 2026 apontam para a repetição de um padrão preocupante: em períodos eleitorais, a divergência política pode ser convertida em hostilidade contra a população nordestina. Os números não significam que todos os brasileiros de outras regiões sejam xenofóbicos, nem autorizam generalizações contra sulistas ou sudestinos. Eles demonstram a necessidade de enfrentar as manifestações de preconceito onde quer que ocorram.

O Nordeste tem problemas que precisam ser enfrentados, assim como as demais regiões brasileiras. Tem desigualdades, desafios educacionais, dificuldades econômicas e demandas históricas por investimentos. Reconhecer essas questões não diminui sua população. Pelo contrário: é o primeiro passo para discutir soluções sem recorrer à humilhação.

Somos uma região de nove estados, múltiplas identidades e milhões de histórias. Somos estudantes que conquistam medalhas, professores que transformam salas de aula, trabalhadores que sustentam famílias, pesquisadores que produzem conhecimento, artistas que atravessam fronteiras e cidadãos que exercem seu direito de escolher.

Não precisamos afirmar que somos superiores a ninguém para contestar a mentira de que somos inferiores.

Se o Brasil pretende se apresentar como uma democracia madura, precisa compreender que o respeito não pode depender do resultado das urnas, do endereço de nascimento ou da posição política de uma pessoa.

O Nordeste não deve ser respeitado porque vota em determinado candidato, conquista medalhas ou contribui para a economia. Deve ser respeitado porque seus habitantes são brasileiros, cidadãos de pleno direito, com a mesma dignidade e as mesmas garantias constitucionais de qualquer outro cidadão.

A democracia brasileira não pertence a uma região, a um partido ou a um grupo político. Pertence a todos nós.
E nenhuma eleição deveria ser motivo para que um brasileiro precisasse se defender por ser nordestino.

Prazer, sou Samara Melo, Cearense e Nordestina com muito orgulho. EU VOTO 13!

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