Quando a intolerância entra na universidade, o respeito precisa ocupar seu lugar
Por Samara Melo — estudante de Biomedicina, escritora e ativista das causas sociais.
Ser estudante de uma instituição de ensino superior é muito mais do que frequentar aulas, cumprir atividades acadêmicas e conquistar um diploma. É também construir pensamento crítico, aprender a conviver com as diferenças, compreender a sociedade e reconhecer que a educação precisa estar a serviço da transformação social.
É justamente por acreditar nisso que escrevo este artigo. Não como alguém que observa de longe uma polêmica política, mas como estudante da Unileão, em Juazeiro do Norte, onde curso Biomedicina por meio do Fundo de Financiamento Estudantil (FIES).
Nos últimos dias, acompanhei com indignação a repercussão das declarações públicas de Maiara Viana Romero, esposa do reitor da instituição, Jaime Romero. As manifestações divulgadas nas redes sociais, incluindo o incentivo à demissão de trabalhadores em razão de suas escolhas eleitorais e comentários depreciativos sobre nordestinos, ultrapassaram, na minha compreensão, os limites de uma simples divergência política.
Como nordestina, estudante e ativista das causas sociais, senti-me pessoalmente ofendida.
Não se trata de exigir que alguém concorde com minhas escolhas políticas, tampouco de impedir que uma empresária, médica ou qualquer cidadã manifeste suas opiniões. A liberdade de expressão é um direito de todos. Entretanto, esse direito não pode ser utilizado como justificativa para defender perseguições profissionais, desqualificar trabalhadores ou reproduzir preconceitos contra uma população inteira.
Divergência política não é autorização para desrespeitar pessoas.
O Nordeste não é uma caricatura, não é sinônimo de pobreza e tampouco pode ser reduzido aos problemas sociais que também existem em outras regiões brasileiras. Somos um povo de história, cultura, conhecimento, trabalho e resistência. Somos professores, pesquisadores, profissionais da saúde, estudantes, empreendedores, artistas e trabalhadores que diariamente contribuem para o desenvolvimento deste país.
Sou cearense e tenho orgulho de minhas raízes. Não preciso esconder minha origem, justificar minha identidade ou pedir licença para exercer minha cidadania.
É particularmente preocupante quando a escolha eleitoral de um trabalhador passa a ser tratada como motivo para perder o emprego. O voto é livre, secreto e constitui um dos instrumentos fundamentais da democracia. O empregador não é proprietário da consciência política de seus funcionários. Uma relação profissional não pode se transformar em instrumento de vigilância ideológica.
E isso precisa ser dito independentemente de quem esteja no poder ou de qual partido esteja sendo defendido.
A universidade não pode ser território de intolerância
Uma instituição de ensino superior deve ser um ambiente de aprendizagem, pesquisa, formação humana e desenvolvimento do pensamento crítico. É onde aprendemos a questionar, argumentar, confrontar ideias e construir conhecimento.
A Constituição Federal estabelece, em seu artigo 205, que a educação deve promover o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.
O artigo 206 também estabelece princípios como a igualdade de condições para acesso e permanência na escola, a liberdade de aprender e ensinar e o pluralismo de ideias.
Esses princípios não são privilégios de determinada corrente política. São fundamentos da educação brasileira.
A laicidade do Estado também é um princípio fundamental de nossa organização constitucional. E, embora uma instituição privada não se confunda juridicamente com o próprio Estado, seu ambiente educacional deve respeitar a liberdade de consciência, a diversidade e o pluralismo garantidos pela Constituição.
Universidade não é espaço para doutrinação partidária, perseguição ideológica ou constrangimento de estudantes por suas convicções. É espaço para aprender a pensar, inclusive quando nossas conclusões são diferentes das conclusões de outras pessoas.
Política precisa, sim, ser discutida dentro das universidades. Questões sociais, econômicas, religiosas, culturais e partidárias fazem parte da formação cidadã. O que não podemos admitir é que o debate seja substituído pela hostilidade.
Não quero estudar em um ambiente onde as pessoas tenham medo de expressar suas opiniões. Quero uma universidade em que um estudante de direita possa defender suas ideias, um estudante de esquerda possa apresentar suas críticas e ambos possam compartilhar o mesmo espaço sem sofrer constrangimentos.
Pluralidade não significa concordância. Significa reconhecer que o outro também tem o direito de pensar.
O FIES, o ProUni e a responsabilidade social
Existe ainda uma discussão que considero indispensável neste episódio: a relação entre o ensino superior privado e as políticas públicas de acesso à educação.
Sou estudante da Unileão pelo FIES. Sei o significado de depender de uma política pública para conseguir ingressar e permanecer no ensino superior. Para muitos brasileiros, o financiamento estudantil representa a possibilidade concreta de alcançar uma formação que, sem esse instrumento, talvez não estivesse ao seu alcance.
O mesmo acontece com o ProUni, que possibilita o ingresso de estudantes de baixa renda em instituições particulares por meio de bolsas integrais e parciais.
A Unileão participa dessas políticas públicas e divulga a oferta de bolsas do ProUni e oportunidades de financiamento pelo FIES. São programas que integram uma política nacional de ampliação do acesso à educação superior.
Isso não significa que uma instituição privada não tenha direito de existir, empreender ou obter resultados econômicos. Significa reconhecer que a educação também possui uma dimensão social e que a participação em políticas públicas exige transparência e responsabilidade.
Quando falamos em educação, não podemos enxergar apenas mensalidades, contratos e resultados financeiros. Precisamos enxergar pessoas. São estudantes que trabalham, enfrentam dificuldades econômicas, sustentam famílias e fazem sacrifícios para conquistar uma profissão.
Eu sou uma dessas estudantes.
Por isso, considero legítimo questionar a relação entre os benefícios proporcionados pelas políticas públicas e o compromisso social das instituições que delas participam.
Não estou afirmando que a Unileão recebe determinado valor anual sem apresentar os demonstrativos oficiais. Estou defendendo que essas informações sejam transparentes e acessíveis à sociedade. O financiamento público da educação merece fiscalização, informação e debate.
Afinal, se políticas públicas são frequentemente utilizadas como argumento em discussões sobre dependência econômica, também precisamos reconhecer a importância delas para a manutenção de oportunidades educacionais e para a formação de profissionais.
O pronunciamento do reitor não encerra a discussão
Após a repercussão do episódio, o reitor Jaime Romero declarou discordar das manifestações de sua esposa e afirmou que nenhum estudante ou funcionário seria prejudicado por suas convicções políticas.
Reconheço a importância de uma declaração pública que reafirme o respeito à comunidade acadêmica. Entretanto, preciso expressar algo muito pessoal: nenhum pronunciamento institucional tem o poder de determinar como uma pessoa deve se sentir diante de uma ofensa.
E nenhum pedido de desculpas mudará o fato de que me senti desrespeitada.
Não significa que eu seja incapaz de reconhecer uma retratação, muito menos que esteja defendendo perseguições contra quem pensa diferente de mim. Significa que a indignação não desaparece simplesmente porque alguém afirma que não houve intenção de prejudicar estudantes ou funcionários.
A questão não é apenas garantir que ninguém será prejudicado dentro da instituição. É compreender que palavras públicas têm consequências, especialmente quando partem de pessoas que ocupam posições de influência social.
A responsabilidade com a educação também se manifesta na maneira como tratamos aqueles que pensam diferente de nós.
Como estudante, espero que a instituição compreenda que sua comunidade acadêmica não é formada por pessoas sem história, sem posicionamento ou sem consciência social. Somos indivíduos com trajetórias diferentes, origens diferentes, condições econômicas diferentes e convicções que merecem respeito.
Minha indignação não é contra quem pensa diferente
Não escrevo para atacar eleitores bolsonaristas, conservadores ou qualquer pessoa que tenha escolhido votar em outro candidato. Não considero que alguém seja menos digno, menos inteligente ou menos merecedor de respeito por sua preferência eleitoral.
A democracia não funciona assim.
Defender a democracia significa defender também o direito de quem discorda de nós. Significa reconhecer que o voto de um trabalhador não diminui sua competência profissional, que a origem de um nordestino não determina sua capacidade intelectual e que a condição econômica de uma pessoa não define seu valor humano.
Sou uma mulher que acredita nas políticas sociais, na educação como instrumento de emancipação e na necessidade de combater as desigualdades. Sou escritora, estudante de Biomedicina e ativista das causas sociais. Minha formação não está dissociada da sociedade em que vivo.
Não tenho vergonha de discutir política. Pelo contrário, considero que a ausência de debate é muito mais prejudicial à democracia do que a divergência de opiniões.
Quero continuar estudando, pesquisando, questionando e construindo minha trajetória profissional. Quero uma universidade que ensine seus estudantes a pensar, não a se calar.
O que aconteceu precisa servir de reflexão para toda a comunidade acadêmica do Cariri. Não podemos normalizar discursos que incentivem a exclusão de trabalhadores, a desvalorização de nordestinos ou a hostilidade contra pessoas por suas escolhas políticas.
A educação não pode ser defendida apenas nos discursos institucionais. Ela precisa ser praticada nas relações humanas.
Não quero que todos pensem como eu. Quero que todos tenham o direito de pensar, falar e existir sem serem humilhados por isso.
E, principalmente, não aceito que minha origem, minha condição social, meu financiamento estudantil ou minhas convicções políticas sejam tratados como motivos para diminuir minha dignidade.
Sou nordestina, sou estudante da Unileão pelo FIES e tenho orgulho de minha trajetória.
Meu direito de pensar não depende da aprovação de ninguém.
Meu voto não determina meu valor.
E meu lugar na universidade não é uma concessão à minha opinião política: é uma conquista que merece respeito.
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