Hoje, 29 de outubro, celebramos o Dia Nacional do Livro, uma data que nos convida a olhar para as páginas que atravessaram gerações e reconhecer o quanto elas contribuíram para a formação do nosso pensamento, da nossa identidade e da sociedade em que vivemos. Mais do que um objeto, o livro é um instrumento de conhecimento, memória e liberdade, capaz de aproximar pessoas, despertar consciências e nos apresentar realidades que talvez nunca conhecêssemos de outra maneira.
A data faz referência à fundação da Real Biblioteca, no Rio de Janeiro, em 1810, instituição que deu origem à atual Biblioteca Nacional. Desde então, a história dos livros no Brasil se entrelaça com a construção da nossa cultura, preservando vozes, registrando conflitos e permitindo que ideias ultrapassem o tempo.
Como cearense, nordestina e escritora, sinto uma profunda gratidão por aqueles que vieram antes de mim e transformaram suas palavras em caminhos para tantas gerações. Graciliano Ramos, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Ariano Suassuna e tantos outros não apenas escreveram histórias: revelaram um Brasil de desigualdades, contradições, tradições e esperanças. Em suas obras, encontramos a dureza da vida sertaneja, as lutas populares, a riqueza da cultura nordestina e a humanidade de pessoas que, apesar das dificuldades, continuam resistindo.
Rachel de Queiroz, nossa conterrânea cearense, deu voz às experiências de um povo marcado pela seca e pelas adversidades. Graciliano Ramos expôs as feridas sociais e a complexidade humana; Jorge Amado fez da cultura popular e das desigualdades brasileiras matéria literária; e Ariano Suassuna mostrou que a identidade nordestina carrega uma riqueza artística que merece ser reconhecida em todo o país. Cada um, à sua maneira, contribuiu para ampliar nossa compreensão da realidade e demonstrar que a literatura também é uma forma de interpretar e questionar o mundo.
É por meio dessas leituras que aprendemos a desconfiar de respostas fáceis, a enxergar além das aparências e a compreender que nenhuma sociedade se torna verdadeiramente justa enquanto parte de sua população permanece sem voz ou oportunidade. O conhecimento não nos torna donos da verdade, mas nos oferece ferramentas para procurá-la, rever nossas convicções e reconhecer a importância do pensamento crítico.
Acredito que todos têm o direito de prosperar, expressar suas ideias e viver com dignidade e liberdade. Defendo um Brasil verdadeiramente comprometido com a laicidade do Estado, no qual a fé, a ausência dela, a classe social ou o gênero de uma pessoa não sejam motivos para negar direitos ou limitar oportunidades. Esses princípios não são apenas ideais políticos ou sociais; são valores que também se fortalecem quando temos acesso à educação, à cultura e à diversidade de pensamentos que os livros proporcionam.
A literatura, entretanto, não está restrita aos grandes nomes consagrados. Ela também nasce nas pequenas cidades, nas periferias, nas comunidades rurais e nos espaços onde escritores independentes lutam para publicar suas obras e conquistar leitores. No Nordeste, temos uma tradição literária que ultrapassa fronteiras, mas ainda há muitas vozes que precisam de incentivo, visibilidade e oportunidades. Valorizar os livros significa também reconhecer quem escreve hoje, sobretudo aqueles que produzem longe dos grandes centros editoriais e enfrentam dificuldades para fazer sua arte chegar ao público.
Como escritora, sei que cada história carrega um pouco da visão de mundo de quem a escreve. Não acredito que um livro, sozinho, seja capaz de transformar toda uma sociedade, mas acredito no poder de uma ideia que encontra o leitor certo, provoca uma pergunta e permanece na memória. Muitas das nossas convicções começam a se formar justamente assim: quando encontramos, nas palavras de outra pessoa, uma inquietação que também era nossa, ou quando uma leitura nos apresenta algo que jamais havíamos considerado.
Por isso, neste Dia Nacional do Livro, minha gratidão se dirige aos escritores que abriram caminhos, aos que continuam escrevendo apesar das dificuldades e aos leitores que mantêm vivas essas histórias. Se hoje posso construir minhas próprias ideias, questionar a realidade e lutar por aquilo em que acredito, é também porque encontrei, nas páginas de tantos autores, inspiração e instrumentos para compreender melhor o mundo.
Que o acesso aos livros não seja privilégio de poucos. Que existam bibliotecas vivas, escolas comprometidas com a leitura, políticas culturais que valorizem os escritores e oportunidades para que novas vozes sejam ouvidas. Que nenhuma pessoa seja impedida de conhecer, imaginar ou criar por causa de sua condição social.
Sou cearense, sou nordestina, sou escritora e reconheço a literatura como parte daquilo que me constitui. Hoje, celebro não apenas os livros que li, mas também os pensamentos que eles despertaram e as possibilidades que me ajudaram a enxergar.
Porque ler é muito mais do que conhecer histórias: é compreender o mundo, questionar as injustiças e descobrir que uma sociedade melhor começa quando reconhecemos que todos têm o direito de pensar, existir e escrever a própria história.
Comentários
Postar um comentário