É difícil olhar para o Brasil dos últimos anos e não perceber uma transformação profunda na maneira como consumimos. O que antes exigia uma ida à loja, uma caminhada pelo centro da cidade ou uma espera pelo comércio abrir, hoje pode ser resolvido em poucos minutos pelo celular. Escolhemos o produto, pagamos, acompanhamos o pedido em tempo real e, muitas vezes, esperamos que ele chegue à nossa porta em um ou dois dias. Em algumas regiões, já esperamos que chegue no mesmo dia. O comércio eletrônico deixou de ser uma novidade e passou a fazer parte da rotina de milhões de brasileiros.
Os números ajudam a dimensionar essa mudança. Em 2025, mais de 90% da população brasileira com dez anos ou mais utilizava a internet e, pela primeira vez desde o início da série do IBGE, mais da metade dos usuários, 52,7%, declarou utilizar a internet para comprar ou encomendar bens e serviços. O percentual de domicílios com acesso à internet chegou a 95%, alcançando 76 milhões de lares.
Não estamos, portanto, falando de uma pequena transformação de comportamento. Estamos falando de uma mudança estrutural na economia brasileira.
E é justamente por isso que existe algo de profundamente contraditório na situação atual dos Correios. Enquanto o brasileiro passou a comprar cada vez mais pela internet, enquanto marketplaces cresceram, enquanto empresas privadas construíram centros de distribuição, hubs, sistemas de rastreamento e redes próprias de entrega, uma empresa que durante décadas foi praticamente sinônimo de entrega no Brasil chegou a uma situação financeira extremamente delicada.
Em 2025, os Correios registraram prejuízo líquido de aproximadamente R$ 8,46 bilhões, com queda significativa da receita e patrimônio líquido negativo. A empresa também reduziu fortemente seus investimentos em comparação com o ano anterior. Os números são oficiais e estão nos próprios documentos da estatal.
E é justamente aqui que começa a pergunta que considero mais interessante: como os Correios chegaram a esse ponto justamente quando o mercado de encomendas parecia oferecer uma oportunidade extraordinária?
Seria injusto responder simplesmente que a empresa “não acompanhou a tecnologia”. Afinal, os Correios investiram em automação, tecnologia da informação, sistemas de gerenciamento de transporte, máquinas de triagem, soluções digitais e serviços voltados ao comércio eletrônico. A própria empresa reconhece em seus relatórios que está passando por um processo de modernização e reestruturação.
O problema talvez seja mais incômodo do que isso.
Talvez os Correios tenham acompanhado a transformação, mas não tenham conseguido acompanhá-la na velocidade necessária.
E, no mundo digital, chegar tarde pode ser quase tão prejudicial quanto não chegar.
A pandemia deixou isso ainda mais evidente. Quando milhões de brasileiros foram obrigados a permanecer em casa, comprar pela internet deixou de ser apenas uma comodidade para se transformar, em muitos casos, na única alternativa possível para adquirir produtos. Empresas que nunca tinham vendido online precisaram criar lojas virtuais, entrar em marketplaces, utilizar redes sociais para vender e encontrar maneiras de fazer seus produtos chegarem aos consumidores.
O comércio eletrônico cresceu, e com ele cresceu uma necessidade que muitas vezes fica escondida atrás da tela do celular: alguém precisa armazenar o produto, separar o pedido, transportá-lo, rastreá-lo, entregar na residência e, quando necessário, receber a devolução.
A logística deixou de ser apenas uma etapa da venda.
Ela se tornou parte do próprio produto.
E foi justamente aí que algumas empresas perceberam uma oportunidade gigantesca.
Amazon, Mercado Livre e Shopee, entre outras, não ficaram satisfeitas em depender exclusivamente de transportadoras tradicionais. Elas começaram a construir suas próprias estruturas. Centros de distribuição, hubs, pontos de coleta, sistemas de roteirização, parceiros logísticos, tecnologias de rastreamento e soluções de última milha passaram a fazer parte do negócio.
A Amazon ampliou sua estrutura logística brasileira, enquanto a Shopee construiu uma rede própria de centros de distribuição e centenas de hubs de primeira e última milha. O Mercado Livre também transformou sua logística em uma parte fundamental da experiência oferecida aos vendedores e compradores.
Não é difícil entender por quê.
Imagine que você venda um produto pela internet. O consumidor não está interessado apenas no produto. Ele quer saber quando vai chegar. Quer acompanhar o trajeto. Quer receber no prazo prometido. Quer ter facilidade para devolver. E, se encontrar duas lojas vendendo exatamente a mesma coisa, provavelmente terá preferência por aquela que oferece uma entrega mais rápida, barata e previsível.
A logística passou a vender junto com o produto.
E os marketplaces perceberam isso antes que muitos operadores tradicionais conseguissem transformar completamente seus modelos.
Os próprios Correios reconhecem em seus documentos que enfrentaram a migração de grandes clientes para estruturas logísticas próprias ou para concorrentes. Esse ponto é fundamental porque mostra que não se trata apenas de uma impressão do consumidor ou de uma percepção de mercado. A própria estatal admite que grandes contratantes passaram a buscar outras soluções.
É aí que surge o paradoxo.
O Brasil passou a movimentar cada vez mais encomendas, mas isso não significa que todas essas encomendas passaram pelos Correios.
O mercado cresceu.
A participação dos Correios não cresceu na mesma proporção.
E essa diferença é enorme.
Durante muito tempo, a força dos Correios parecia praticamente impossível de desafiar. A empresa possuía uma vantagem que nenhuma concorrente conseguiria reproduzir rapidamente: capilaridade. Os Correios chegaram onde muitas empresas privadas não tinham interesse econômico em chegar. Possuíam agências, centros de tratamento, veículos, carteiros, rotas e presença em praticamente todo o território nacional.
Esse patrimônio continua existindo.
Mas o mercado mudou.
Uma empresa privada não precisa necessariamente reproduzir a estrutura postal tradicional. Ela pode escolher onde construir um centro de distribuição, onde instalar um hub, onde concentrar estoque e quais regiões possuem demanda suficiente para justificar determinado investimento.
Ela trabalha com dados.
Analisa volume.
Prevê demanda.
Testa rotas.
Muda a estrutura conforme o comportamento do consumidor.
Os Correios, por outro lado, carregam uma obrigação que seus concorrentes não possuem na mesma dimensão: a universalização dos serviços postais.
Essa diferença não pode ser ignorada.
Uma empresa privada pode olhar para uma determinada cidade e concluir que manter uma operação ali não é economicamente interessante. Os Correios não podem simplesmente pensar dessa maneira. Sua presença nacional faz parte da própria razão de existir da empresa.
Segundo informações divulgadas pelos próprios Correios, aproximadamente 85% das unidades são deficitárias e precisam ser custeadas pelas atividades concorrenciais da empresa. O custo da universalização representa uma parcela significativa das despesas.
Isso significa que os Correios não são apenas uma empresa de entregas.
São também uma infraestrutura pública.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores dificuldades da discussão.
Quando comparamos os Correios com Amazon, Mercado Livre ou Shopee, estamos comparando empresas que possuem modelos de negócio diferentes. Uma busca maximizar eficiência e retorno em determinados mercados. A outra precisa equilibrar eficiência comercial com uma obrigação de alcance nacional.
Isso não significa que uma empresa estatal tenha autorização para ser ineficiente.
Também não significa que qualquer prejuízo possa ser justificado simplesmente porque existe uma função social.
Significa que precisamos discutir o problema com mais honestidade.
Se o Estado exige que uma empresa mantenha estruturas deficitárias por uma razão de interesse público, é preciso discutir de forma transparente quanto essa política custa, como ela será financiada e como impedir que a obrigação de universalização comprometa justamente a capacidade da empresa de competir nas áreas onde existe mercado.
Porque existe um segundo problema.
A concorrência não parou para esperar os Correios resolverem suas dificuldades.
Enquanto a estatal enfrentava problemas financeiros, outras empresas estavam investindo.
E não estavam investindo apenas em caminhões.
Estavam investindo em tecnologia.
Em centros de distribuição.
Em automação.
Em inteligência de dados.
Em sistemas de roteirização.
Em integração com marketplaces.
Em pontos de retirada.
Em logística reversa.
Em última milha.
A diferença é importante.
A logística moderna não é simplesmente transportar uma caixa de um lugar para outro.
É saber onde a caixa está antes mesmo que o consumidor pergunte.
É prever quando ela chegará.
É determinar qual rota será mais eficiente.
É aproximar o estoque do consumidor.
É reduzir o número de quilômetros percorridos.
É conseguir processar milhares de pedidos sem transformar cada etapa em uma operação manual.
É integrar a venda, o estoque, o transporte e a entrega em uma única estrutura.
E aqui os Correios possuem algo extraordinário nas mãos, mas que talvez não tenham conseguido explorar em toda sua dimensão: uma das maiores redes logísticas do país já construída.
A pergunta que deveria incomodar é justamente essa.
Como uma empresa que já possuía uma estrutura nacional gigantesca não conseguiu transformar essa vantagem histórica em uma plataforma logística digital capaz de competir de igual para igual com os novos gigantes do comércio eletrônico?
Não faltava território.
Não faltavam funcionários experientes.
Não faltavam rotas.
Não faltava conhecimento logístico.
Não faltava uma marca conhecida.
E, principalmente, não faltava demanda.
O que mudou foi a lógica do mercado.
Talvez os Correios tenham passado tempo demais pensando em entrega quando o mercado já estava pensando em ecossistema.
Hoje, o vendedor de um marketplace não quer apenas uma transportadora. Ele quer uma solução. Quer colocar seu produto em um centro de distribuição, receber o pedido automaticamente, acompanhar o estoque, gerar a etiqueta, ter a entrega processada, acompanhar o consumidor e resolver uma eventual devolução dentro do mesmo sistema.
Os Correios começaram a caminhar nessa direção.
O Correios Log+, por exemplo, oferece serviços de armazenamento, processamento de pedidos, separação, embalagem e logística integrada para o comércio eletrônico. A estatal também ampliou sua estrutura de fulfillment e vem investindo em automação e modernização.
Mas existe uma diferença entre entrar em um mercado e ser responsável por moldá-lo.
E essa diferença pode custar bilhões.
Quando a Amazon constrói sua rede logística, ela não está simplesmente tentando entregar melhor. Está criando uma barreira para os concorrentes.
Quando o Mercado Livre investe em logística, ele torna seu próprio marketplace mais atrativo.
Quando a Shopee expande seus centros e hubs, ela diminui o tempo entre o vendedor e o consumidor.
A logística deixa de ser um serviço terceirizado e passa a ser uma ferramenta de fidelização.
É uma mudança de paradigma.
E talvez seja justamente esse paradigma que os Correios tenham demorado para incorporar.
Isso não significa que a empresa esteja condenada.
Muito pelo contrário.
Os Correios ainda possuem algo que os concorrentes levariam décadas para reproduzir: uma presença nacional construída ao longo de décadas.
A empresa também possui experiência, infraestrutura, conhecimento territorial e uma relação histórica com milhões de brasileiros.
O problema é que infraestrutura parada não gera vantagem competitiva.
Ela precisa ser transformada.
Uma agência pode ser muito mais do que um lugar para postar uma encomenda. Pode ser um ponto de retirada. Pode funcionar como microcentro logístico. Pode atender pequenos vendedores. Pode receber devoluções. Pode integrar serviços digitais. Pode participar de uma rede de distribuição urbana.
Um centro de tratamento pode ser muito mais do que um lugar onde caixas são separadas. Pode ser uma estrutura automatizada.
Um carteiro pode ser muito mais do que alguém que entrega correspondência. Ele pode fazer parte de uma rede de última milha extremamente inteligente, baseada em roteirização, dados e otimização de percursos.
A pergunta não deveria ser se os Correios ainda são necessários.
Eles são.
A pergunta deveria ser: que tipo de Correios o Brasil precisa?
Porque tentar preservar a empresa exatamente como ela funcionava décadas atrás provavelmente não será suficiente.
Cartas diminuíram.
As contas migraram para aplicativos.
As comunicações ficaram instantâneas.
Mas as pessoas continuam comprando.
E, quanto mais compram, mais precisam que alguma coisa física atravesse o país e chegue até suas casas.
A ironia é que os Correios estão justamente diante de um mercado que poderia ser sua grande oportunidade.
O Brasil está mais conectado do que nunca. Em 2025, 95% dos domicílios tinham acesso à internet e mais da metade dos usuários já utilizava a rede para comprar ou encomendar bens e serviços.
O comércio varejista também consolidou a presença digital. Segundo o IBGE, a proporção de empresas varejistas que realizavam algum tipo de comercialização pela internet passou de 4,7% em 2019 para 8,6% em 2023, um crescimento de 97,6% no número de empresas que utilizavam esse canal.
Existe mercado.
Existe demanda.
Existe infraestrutura.
Existe tecnologia disponível.
O que existe, infelizmente, é também uma concorrência que avançou muito rapidamente.
Por isso, talvez seja simplista dizer que os Correios “perderam o bonde da tecnologia”. Eles não ficaram completamente parados. O que aconteceu foi algo mais complexo e, de certa forma, mais preocupante: enquanto a empresa se modernizava, o mercado se transformava em uma velocidade ainda maior.
E quando uma empresa perde participação em um mercado que cresce, o problema não é simplesmente que ela deixou de crescer.
É que alguém cresceu ocupando o espaço que poderia ter sido dela.
A crise atual, portanto, deveria ser encarada menos como uma disputa ideológica entre “estatal” e “privado” e mais como uma discussão sobre estratégia.
Os Correios precisam ser eficientes? Sim.
Precisam investir em tecnologia? Evidentemente.
Precisam reduzir desperdícios e rever processos? Também.
Precisam preservar sua função de universalização? Sim, se essa continuar sendo uma obrigação pública definida pelo Estado.
Mas precisam, sobretudo, descobrir como transformar uma estrutura gigantesca, construída durante décadas, em uma empresa capaz de funcionar na lógica do século XXI.
Porque não adianta ter a maior rede se outra empresa consegue entregar mais rápido.
Não adianta ter presença nacional se o sistema não oferece uma experiência competitiva.
Não adianta possuir milhares de pontos físicos se o consumidor resolve tudo pelo celular.
E não adianta simplesmente comprar novas máquinas se o modelo de negócio continua preso a uma lógica antiga.
Os Correios não precisam necessariamente ser menores.
Precisam ser mais inteligentes.
Precisam deixar de enxergar a tecnologia como ferramenta de apoio e passar a tratá-la como parte central do negócio.
Precisam entender que a encomenda não começa quando chega à agência e não termina quando o carteiro toca a campainha. Ela começa muito antes, no momento em que o consumidor clica em “comprar”, e termina somente quando aquele consumidor considera que recebeu exatamente a experiência que esperava.
É esse novo conceito de logística que Amazon, Mercado Livre e Shopee entenderam tão bem.
E talvez seja justamente isso que os Correios precisem recuperar: não a liderança que tiveram no passado, mas a capacidade de imaginar qual liderança podem exercer no futuro.
Porque o mais triste nessa história não seria ver uma empresa centenária enfrentar dificuldades.
O mais triste seria descobrir, daqui a alguns anos, que o Brasil tinha diante de si uma das maiores redes logísticas do país justamente no momento em que o comércio eletrônico explodia, mas não conseguiu transformá-la em uma das maiores plataformas logísticas da América Latina.
Os Correios ainda têm uma chance.
Mas a janela de oportunidade não é infinita.
O mercado já mudou.
O consumidor já mudou.
A tecnologia já mudou.
A concorrência já mudou.
Agora resta saber se os Correios conseguirão mudar na mesma velocidade.
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