Quando Mulheres Reagem, o Mundo as Chama de Monstros

Por Samara Melo



Assistir The Handmaid's Tale nunca foi apenas acompanhar uma série. É encarar um espelho cruel da realidade, ainda que vestido de ficção. Existe uma cena específica que me atravessou profundamente: o momento em que June e outras refugiadas se vingam de Fred Waterford. Muitos assistiram aquela cena e disseram que elas haviam se tornado tão cruéis quanto Gilead. Eu não consegui enxergar assim.

Vi mulheres reagindo.

E talvez seja exatamente isso que mais assuste o mundo: mulheres que deixam de aceitar a violência em silêncio.

Fomos ensinadas desde cedo a sermos doces, obedientes, compreensivas, pacientes. A mulher “boa” é aquela que suporta tudo sem perder a delicadeza. A sociedade aceita mulheres sofrendo. Aceita mulheres chorando. Aceita mulheres sendo destruídas aos poucos. Mas raramente aceita mulheres furiosas.

A raiva feminina incomoda porque ela rompe o papel que nos foi imposto.

Em Gilead, mulheres são reduzidas a corpos úteis. Não possuem autonomia, voz, escolha ou liberdade. São escravas sexuais dentro do próprio país. Muitas morreram simplesmente por serem “teimosas”, por tentarem fugir, por aprenderem escondido, por influenciarem outras mulheres a desejarem liberdade. Foram executadas por ousarem existir além daquilo que o sistema permitia.

Então me pergunto: como exigir humanidade intacta de quem teve sua humanidade arrancada?

June não surge violenta do nada. A violência nasce do ambiente que a consumiu durante anos. Cada tortura psicológica, cada estupro ritualizado, cada ameaça constante molda alguém que aprende a sobreviver da única forma possível. E sobreviver, muitas vezes, significa reagir.

Por isso não consigo condenar aquelas mulheres. Não vejo monstros. Vejo sobreviventes.

E essa reflexão não pertence apenas à ficção. Ela atravessa a realidade diariamente. Quantas mulheres vivem relações abusivas tentando parecer “boas” enquanto são destruídas emocionalmente? Quantas silenciam por medo de serem julgadas? Quantas morrem justamente porque não reagiram a tempo?

Existe algo profundamente cruel na maneira como a sociedade frequentemente julga mulheres não apenas pela violência que sofreram, mas pela forma como respondem a ela. Quando suportam tudo em silêncio, são chamadas de fortes. Quando reagem, passam a ser perigosas.

Uma mãe que descobre o abuso do próprio filho ou filha e reage violentamente não nasce monstruosa naquele instante. Ela explode após atravessar um limite insuportável. Antes de se tornar uma Elise, você tem que aprender a ser a outra. Isso não significa romantizar violência, mas reconhecer que o desespero humano possui profundidades que só quem vive o horror consegue compreender completamente.

Talvez seja isso que The Handmaid's Tale retrate tão bem: sistemas violentos não deixam vítimas intactas. Mulheres que sobrevivem ao terror carregam marcas profundas. Algumas quebram. Algumas silenciam. Algumas enlouquecem. E algumas aprendem a lutar.

Poucas sobrevivem.

Mas as que sobrevivem quase nunca voltam sendo as mesmas.

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