O Poder, o Controle e o Silêncio das Mulheres


Por Samara Melo | 16 de Maio de 2026


Assistindo à The Handmaid's Tale, é impossível não perceber algo inquietante: a obsessão histórica masculina pelo poder. A série pode ser uma ficção distópica, mas a sensação de realidade é desconfortável justamente porque ela ecoa comportamentos repetidos ao longo dos séculos.

Não é coincidência que, em diferentes períodos da humanidade, homens tenham ocupado os espaços de comando enquanto mulheres eram empurradas para posições de submissão. A dominação masculina não nasceu ontem. Ela foi construída lentamente através da política, da religião, das guerras, das leis e até da cultura.

Durante séculos, mulheres foram proibidas de votar, estudar, trabalhar, possuir bens ou decidir sobre o próprio corpo. Em muitos países, uma mulher precisava da autorização do marido até para abrir uma conta bancária. Na World War II, enquanto homens lutavam nos campos de batalha, mulheres assumiam fábricas, hospitais e trabalhos essenciais. Ainda assim, ao fim da guerra, muitas foram pressionadas a abandonar esses espaços e retornar ao papel de “boas esposas”.

Mulheres solteiras, mães solo e lésbicas frequentemente foram marginalizadas, perseguidas ou tratadas como ameaça social. Não porque representassem perigo real, mas porque fugiam do modelo idealizado de submissão feminina criado por uma sociedade patriarcal.

E talvez seja essa a maior estratégia do poder: transformar mulheres em algo útil para servir aos interesses masculinos. Objetos de prazer. Símbolos de pureza. Corpos para reprodução. Vozes que devem permanecer baixas. Mulheres ensinadas a agradar, obedecer e suportar.

O mais assustador é perceber que esse pensamento não vive apenas nos homens. Muitas mulheres também reproduzem essa lógica, defendendo sistemas onde homens lideram e mulheres servem. Isso acontece porque a submissão feminina foi normalizada por gerações. Algumas cresceram acreditando que silêncio é virtude e obediência é amor.

Mas questionar isso não é odiar homens. É analisar estruturas históricas de poder. Existem homens que lutam ao lado das mulheres, assim como existem mulheres que sustentam sistemas opressores. O problema nunca foi apenas o gênero. O problema é a sede pelo controle.

Quando uma sociedade tenta controlar o corpo feminino, sua liberdade, sua sexualidade, sua voz e seus direitos, ela não está protegendo valores. Está protegendo poder.

Por isso The Handmaid's Tale causa tanto impacto. Porque nos obriga a olhar para o passado — e perceber que muitas das violências retratadas ali não são invenções absurdas. São reflexos exagerados de ideias que ainda existem no presente.

A luta das mulheres nunca foi apenas por igualdade. Sempre foi, antes de tudo, pelo direito de existir como ser humano completo — livre, pensante e dono de si.

Outra parte mais inquietante é o uso da fé das pessoas. O fanatismo religioso é capaz de reestruturar uma sociedade inteira sem permitir questionamentos daqueles que não vivem sob o mesmo regime, que não compartilham da mesma crença. Um sistema que obriga pessoas a acreditar, participar e obedecer, sem lhes dar o direito da escolha.

E talvez seja exatamente isso que torna The Handmaid's Tale tão assustador: a percepção de que a ficção pode caminhar perigosamente ao lado da realidade.

Não me condenem, mas durante as eleições brasileiras de 2018, uma parcela fanática da população, cegamente movida pela religião e pelo medo, depositou sua confiança em discursos marcados por autoritarismo, intolerância e exaltação da violência. Pela primeira vez, muitos sentiram um verdadeiro lampejo de como democracias podem ser fragilizadas quando líderes usam a fé como ferramenta de manipulação emocional e política.

Foi impossível não perceber semelhanças entre a ficção e a vida real: homens sedentos por poder, alimentados pela devoção cega de seguidores que transformam políticos em figuras quase sagradas. Discursos de ódio passaram a ocupar espaços antes destinados ao debate. Propostas deram lugar a gritos vazios. A política deixou de ser diálogo e passou a ser guerra.

É revoltante pensar o quão perto estivemos de perder liberdades fundamentais: o direito de questionar, votar, escolher no que acreditar e expressar opiniões sem medo. Quando figuras públicas relativizam a violência contra mulheres, exaltam torturadores ou tentam silenciar vozes divergentes, não estamos mais falando apenas de política — estamos falando sobre ameaça à humanidade e à democracia.

A religião deveria ser um espaço de acolhimento, paz e esperança. Mas nas mãos de pessoas sedentas por controle, ela se torna instrumento de manipulação. A fé passa a ser distorcida para justificar preconceitos, controlar corpos, interferir em decisões políticas e alimentar divisões sociais.

E isso não deveria ser normalizado.

O problema nunca foi a religião em si, mas o uso dela como mecanismo de poder. Porque quando líderes políticos utilizam a fé para controlar pensamentos, transformar opositores em inimigos e impedir o pensamento crítico, o perigo deixa de ser apenas ideológico — ele se torna social, humano e profundamente perigoso.

A democracia sobrevive justamente porque pessoas ainda questionam. Porque ainda existem vozes que se recusam ao silêncio. Porque liberdade não é apenas votar; é também poder pensar diferente sem ser perseguido por isso.

E talvez essa seja a maior lição: sociedades não perdem sua liberdade de uma só vez. Elas perdem aos poucos, enquanto aprendem a chamar autoritarismo de fé, ódio de patriotismo e submissão de moralidade.



Comentários

  1. Eu acho que nunca pensei tanto, quanto estou pensando ao ler esse texto. Muito bom! 👏👏👏👏

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