Por Samara Melo| Maio de 2026
Entre uma tarefa e outra, entre o cansaço acumulado e as responsabilidades que nunca cessam, existe um espaço — pequeno, quase invisível — onde eu escrevo. E é nesse intervalo que nascem histórias, personagens, conflitos e amores que, de alguma forma, também me mantêm viva.
Escrever, para mim, não é apenas um passatempo. É um ato de resistência.
Eu sei que não estou sozinha. Existem inúmeras mulheres que, assim como eu, transformam o pouco tempo que têm em universos inteiros. Mulheres que escrevem no transporte público, no intervalo do trabalho, depois de um dia exaustivo, quando o corpo pede descanso, mas a mente insiste em criar. Mulheres que não esperam o cenário ideal — porque ele quase nunca existe.
A mulher é, por essência, múltipla.
Somos multitarefa, somos força em movimento. Mesmo cansadas, seguimos. Mesmo desacreditadas, provamos. Vamos além do que imaginamos ser capazes. Quebramos recordes invisíveis todos os dias — aqueles que não saem nas manchetes, mas sustentam casas, famílias e sonhos.
Ser mulher é acumular papéis sem deixar de ser inteira.
É ser mãe, filha, trabalhadora sob regime CLT, estudante, artista, cuidadora e, ainda assim, encontrar espaço para ser criadora. E é nesse espaço que eu escrevo. Porque escrever é, também, afirmar a minha existência para além das funções que me foram impostas.
Escrevo romances, sim. E há quem subestime isso.
Mas escrever sobre amor, em um mundo que constantemente nos violenta, é um ato político. É acreditar no afeto quando tudo parece ruir. É construir protagonistas femininas fortes, complexas, desejantes — que não pedem permissão para existir.
Enquanto tantas de nós ainda lutam pelo direito básico à vida, enquanto ainda precisamos gritar “parem de nos matar”, escrever se torna também um grito. Um grito mais silencioso, mas não menos potente.
Cada história é um lembrete de que merecemos viver, amar, escolher e sonhar.
Eu escrevo porque acredito. Acredito no amor, mesmo quando ele parece improvável. Acredito na força das mulheres, mesmo quando o mundo insiste em nos reduzir. Acredito que nossas histórias importam — e precisam ser contadas.
E, acima de tudo, escrevo porque não desisto.
Porque ser mulher é isso: ir além, sempre. Mesmo quando tudo diz para parar.

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