Não é de hoje que a violência contra a mulher existe — o que mudou foi apenas o nome que damos a ela. Hoje chamamos de feminicídio. Ontem, chamavam de justiça, de moral, de ordem.
A história não esconde: ela repete.
O caso de Ana Bolena é um dos mais emblemáticos. Acusada de adultério, incesto e traição, foi executada por ordem de Henrique VIII em 1536. Não havia provas concretas — apenas acusações convenientes. Seu “crime”? Não gerar um herdeiro homem, ocupar espaço político e, talvez, tornar-se incômoda demais. Historiadores apontam que as acusações eram frágeis ou fabricadas, e que sua morte serviu muito mais aos interesses do rei do que à verdade .
Mas Ana não foi exceção. Ela foi padrão.
Séculos antes e depois dela, milhares de mulheres foram perseguidas, julgadas e mortas sob justificativas igualmente frágeis. Durante as caças às bruxas na Europa e nas colônias, bastava ser mulher, viúva, independente ou “difícil” para virar alvo. Anne Hibbins foi enforcada em 1656 após conflitos com vizinhos e por “falar demais”. Mais tarde, chegou-se a dizer que ela morreu por ter “mais inteligência que os outros” .
Na Inglaterra, Agnes Waterhouse foi executada em 1566 sob acusações de feitiçaria envolvendo mortes e doenças — baseadas em confissões e crenças supersticiosas, não em evidências concretas . Na França, Peronne Goguillon foi queimada viva após acusações forçadas, incluindo pactos com o diabo e crimes impossíveis de provar . Na Dinamarca, Anne Palles foi condenada em um contexto de paranoia coletiva e denúncias frágeis .
O padrão se repete com uma precisão perturbadora: acusações frágeis, julgamentos manipulados, punições extremas. E, quase sempre, um elemento em comum — eram mulheres que saíam do papel esperado.
Mulheres que falavam.
Mulheres que herdavam bens.
Mulheres que não obedeciam.
Mulheres que incomodavam.
Não era sobre bruxaria. Nunca foi.
Era sobre controle.
Se olharmos com honestidade, esses episódios históricos carregam todos os elementos do que hoje entendemos como feminicídio: violência extrema motivada por desigualdade de gênero, silenciamento e eliminação da mulher enquanto sujeito. A diferença é que, naquela época, o sistema não apenas permitia — ele legitimava.
E talvez essa seja a parte mais incômoda: não estamos falando de exceções trágicas, mas de uma estrutura.
Porque quando uma mulher era morta por “traição” sem provas, por “feitiçaria” sem evidência, ou por “desonra” baseada em rumores, o que estava sendo julgado não era o crime — era a sua existência fora do controle masculino.
Hoje, temos leis. No Brasil, o feminicídio é tipificado. Há nome, há reconhecimento, há denúncia. Mas a pergunta que fica é inevitável:
o quanto realmente mudou?
Ainda vemos mulheres sendo mortas por ciúme, por rejeição, por não aceitarem submissão. Ainda vemos narrativas que tentam justificar o injustificável — como se, de alguma forma, elas tivessem provocado o próprio fim.
A história não ficou no passado.
Ela apenas trocou de linguagem.
E talvez o maior erro seja pensar que evoluímos completamente, quando, na verdade, ainda estamos aprendendo a reconhecer aquilo que por séculos foi tratado como normal.
Dar nome é o primeiro passo.
Mas enfrentar a raiz — essa ainda é uma luta em curso.
Há uma camada ainda mais silenciosa — e talvez mais cruel — nessa realidade: a dificuldade de reconhecer a própria violência.
Porque nem toda violência deixa marcas visíveis. Nem toda dor grita. Muitas sussurram, se infiltram na rotina, se disfarçam de cuidado, de ciúme, de “amor”. E é aí que mora o perigo.
Muitas mulheres não se percebem como vítimas. E não por ignorância, mas por construção.
Fomos ensinadas a suportar.
A compreender.
A relevar.
A acreditar que o problema pode ser resolvido com mais paciência, mais esforço, mais silêncio.
A violência psicológica, por exemplo, corrói aos poucos. Ela não chega com um impacto, mas com repetições: desvalorização, controle, manipulação, isolamento. Quando a mulher percebe, já está duvidando de si mesma, da própria percepção, da própria sanidade.
A violência patrimonial, muitas vezes invisível, aprisiona sem grades. O controle do dinheiro, a retirada de autonomia, a dependência financeira forçada — tudo isso limita escolhas e transforma a saída em um risco.
E a violência física, embora mais evidente, ainda é negada em muitos casos. Porque admitir que chegou a esse ponto é, para muitas, admitir também a perda de controle sobre a própria vida. É encarar o medo, o julgamento social, a culpa que nunca deveria existir, mas insiste em aparecer.
Existe uma vergonha que não deveria ser delas.
Mas é.
Aceitar que está em situação de violência não é fraqueza. É, na verdade, um dos atos mais difíceis e corajosos que existem. Porque rompe uma narrativa interna construída ao longo de anos. Porque exige encarar o que dói, o que assusta, o que desestabiliza.
É reconhecer: “isso não é normal”.
É dizer: “isso não é amor”.
É entender: “eu não mereço viver assim”.
E talvez esse seja, de fato, o primeiro passo — não o mais fácil, mas o mais transformador.
Quando a mulher consegue nomear o que vive, algo começa a mudar. A vergonha começa a perder força. O silêncio deixa de ser abrigo e passa a ser prisão. E, pouco a pouco, surge espaço para algo essencial: o pedido de ajuda.
Pedir ajuda não é fracasso.
É ruptura.
Ruptura com o ciclo.
Ruptura com o medo.
Ruptura com uma história que não precisa continuar sendo escrita da mesma forma.
Se durante séculos ensinaram mulheres a suportar, hoje a urgência é outra: ensinar que elas podem sair, que podem falar, que podem sobreviver — e mais do que isso, que podem viver com dignidade.
Reconhecer a violência é doloroso.
Mas permanecer nela custa muito mais.
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