08 De Março de 2026

Por Samara Melo






Em 2026, o 08 de março no Brasil deixou de ser uma data simbólica marcada por flores, campanhas publicitárias e discursos protocolares. Neste ano, o Dia Internacional da Mulher assumiu outro tom: o de protesto, luto e reflexão. Em muitas cidades, mulheres foram às ruas não para celebrar conquistas, mas para denunciar perdas. Em outras, optaram pelo silêncio — um silêncio pesado, carregado de nomes, histórias interrompidas e vidas que não chegaram ao futuro. O país parece ter sido atravessado por uma pergunta incômoda: como celebrar quando tantas mulheres continuam morrendo apenas por serem mulheres?

O feminicídio no Brasil já não pode ser tratado como um fenômeno isolado ou episódico. Ele se consolidou como uma tragédia estrutural, repetida em diferentes regiões, classes sociais e contextos. Os números são brutais: mais de mil e quinhentas mulheres são assassinadas por feminicídio todos os anos no país. Isso significa que, em média, uma mulher é morta a cada poucas horas. Não se trata apenas de violência doméstica. Trata-se de uma cultura que ainda naturaliza o controle sobre o corpo, a liberdade e a vida das mulheres.

Por trás das estatísticas existem nomes que, por alguns dias, ocupam manchetes, geram indignação nas redes sociais e depois desaparecem do debate público. Nomes como Liliane de Souza Bonfim Duarte, assassinada de forma brutal em um caso que repercutiu nacionalmente e se tornou símbolo de mais uma mulher morta dentro de um ciclo de violência que poderia ter sido interrompido. Nomes de mulheres que muitas vezes já haviam denunciado ameaças, pedido ajuda, buscado proteção institucional — e ainda assim acabaram mortas. Em São Paulo, uma mulher de 44 anos foi assassinada pelo próprio companheiro justamente no dia 8 de março, uma ironia cruel que escancara o abismo entre a simbologia da data e a realidade vivida por milhares de brasileiras. Cada um desses casos carrega um padrão que já se tornou conhecido: o agressor é quase sempre alguém próximo — parceiro, ex-companheiro, namorado, marido. O lugar do crime costuma ser o mesmo que deveria ser o mais seguro: a casa.

Os dados revelam ainda um recorte social e racial profundo. A maioria das vítimas de feminicídio no Brasil é formada por mulheres negras, que representam cerca de 60% dos casos registrados. Isso evidencia que a violência de gênero também atravessa desigualdades históricas de raça e classe, atingindo de maneira mais intensa mulheres que já vivem em contextos de vulnerabilidade social. Não é coincidência. É a combinação de racismo estrutural, desigualdade econômica e violência de gênero atuando de forma simultânea.

Diante desse cenário, o Estado brasileiro não pode alegar ausência de instrumentos legais. Nos últimos anos, o país construiu um arcabouço jurídico relativamente robusto para enfrentar a violência contra mulheres. A Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, estabeleceu medidas protetivas, criou mecanismos de afastamento do agressor e estruturou políticas de atendimento às vítimas. Em 2015, a Lei do Feminicídio incluiu no Código Penal a qualificadora específica para assassinatos motivados por gênero, reconhecendo oficialmente que esses crimes não são homicídios comuns, mas o resultado extremo de uma cadeia de violência e desigualdade.

Mais recentemente, políticas públicas foram ampliadas: fortalecimento do canal de denúncia Ligue 180, criação de casas-abrigo para mulheres ameaçadas, monitoramento eletrônico de agressores e expansão de delegacias especializadas no atendimento à mulher. Em teoria, trata-se de uma rede institucional de proteção. Na prática, porém, essa rede ainda é insuficiente e profundamente desigual no território brasileiro. Muitas cidades, especialmente no interior, sequer possuem delegacias especializadas ou estruturas adequadas de acolhimento. Em diversos casos, mulheres precisam percorrer longas distâncias para registrar uma denúncia ou buscar proteção. Em outros, enfrentam descrédito institucional, demora judicial ou falhas no cumprimento das medidas protetivas.

Esse hiato entre a legislação e a realidade é um dos pontos mais criticados por pesquisadoras e movimentos feministas. O Brasil possui leis importantes, mas a implementação dessas políticas ainda esbarra em falta de orçamento, estrutura e prioridade política. Enquanto isso, o ciclo de violência continua operando de forma previsível: ameaça, agressão, denúncia, retorno do agressor, escalada da violência e, em muitos casos, o feminicídio.

Existe também um problema que nenhuma lei, isoladamente, consegue resolver: o problema cultural. O feminicídio não nasce no momento do crime. Ele é o resultado de uma sequência de permissões sociais. Começa em pequenas violências naturalizadas — o controle sobre a roupa, os amigos, o trabalho, os deslocamentos. Prossegue em ameaças tratadas como “problema de casal”. Avança em agressões que muitas vezes são relativizadas pela própria comunidade. Quando finalmente chega à esfera criminal, já é tarde demais para muitas vítimas.

Talvez por isso o 08 de março de 2026 tenha sido diferente. Não houve clima de celebração. Houve indignação. Houve medo. Houve também uma crescente percepção de que o feminicídio deixou de ser apenas uma pauta de movimentos sociais e passou a ser uma crise nacional de segurança pública e direitos humanos. Em diversas cidades, manifestantes levaram cartazes com nomes de vítimas. Não eram apenas protestos. Eram memoriais improvisados.

Cada nome erguido nas ruas representava uma vida interrompida e uma pergunta que continua sem resposta clara: quantas mulheres ainda precisarão morrer para que a violência de gênero seja tratada como prioridade absoluta no país? Enquanto essa pergunta permanecer sem resposta efetiva, o 08 de março continuará sendo menos um dia de comemoração e mais um dia de lembrança — lembrança das que foram silenciadas, das que continuam lutando para sobreviver e das que ainda esperam que o Brasil, finalmente, transforme leis em proteção real.

Neste contexto, o silêncio que marcou muitas manifestações deste ano não foi vazio. Foi um silêncio cheio de nomes. E, sobretudo, um silêncio que exige que o país escute aquilo que há décadas mulheres vêm tentando dizer: que nenhuma sociedade pode se considerar justa enquanto suas mulheres continuam sendo assassinadas dentro de casa, diante da indiferença coletiva e da lentidão institucional. O 08 de março de 2026 deixou claro que o Brasil já não pode fingir surpresa diante dessa tragédia. A questão agora não é mais reconhecer o problema. É decidir, como país, se finalmente haverá coragem política e social para enfrentá-lo.

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