Samara Melo | Janeiro de 2026
A Filha do Escritor, de Gustavo Bernardo, é uma obra que se constrói sobre a dúvida, a instabilidade da memória e o jogo entre realidade e invenção. A narrativa se desenvolve a partir dos relatos de uma jovem durante sessões de terapia, embora esse dado só se revele com clareza ao leitor de forma gradual e perturbadora.
Durante a leitura, não fica evidente de imediato que toda a história ocorre no espaço clínico. As conversas são lúcidas, bem articuladas, e isso cria a ilusão de que estamos diante de uma narrativa factual. Cheguei, inclusive, a acreditar que a protagonista fosse realmente filha de Machado de Assis — interpretação que se fortalece justamente pela ausência de referências explícitas que neguem essa possibilidade. O fato de eu não ter lido O Alienista naquele momento contribuiu para que essa ligação intertextual passasse despercebida, o que tornou a experiência ainda mais enganosa e, paradoxalmente, mais eficaz.
Gustavo Bernardo manipula o discurso com extrema habilidade. A protagonista narra sua história com tanta convicção que não apenas o médico é levado a duvidar de seus próprios critérios clínicos, como também o leitor se vê completamente capturado por sua versão dos fatos. A narrativa não denuncia a loucura; ela a racionaliza, a organiza, a torna plausível. E é justamente aí que reside a força do livro: a loucura não aparece como ruptura, mas como continuidade.
O choque definitivo vem no desfecho, sintetizado na frase fragmentada e caótica — “dados, dedos, dedos, dados doidos” — que desmonta tudo o que foi cuidadosamente construído até então. Nesse momento, torna-se evidente que a história não passava de uma elaboração mental da personagem. Ainda assim, o impacto não está apenas na revelação, mas no fato de que, mesmo sabendo disso, o leitor percebe que também acreditou. Fomos enganados com elegância.
Confesso que odiei o final na primeira leitura — talvez por frustração, talvez por me sentir ludibriada. Mas esse incômodo é parte essencial da proposta do livro. A Filha do Escritor não busca conforto, nem fechamento tradicional. Ele provoca, desloca e expõe o quanto nossa confiança na narrativa pode ser facilmente manipulada.
No fim, a obra não fala apenas sobre loucura ou literatura, mas sobre o poder da linguagem de criar realidades — mesmo quando elas só existem na cabeça de quem as conta.
Rsrsrs… odiar o final, nesse caso, talvez seja a maior prova de que o livro funcionou.

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