Resenha – Agnes Grey, de Anne Brontë

 

Samara Melo | Janeiro de 2026



Agnes Grey é um romance que acompanha a trajetória de uma jovem de origem modesta que, movida pelo desejo de independência e também pelas dificuldades financeiras da família, passa a trabalhar como governanta para famílias mais ricas. No início da leitura, causa estranhamento o fato de os pais aceitarem enviar a filha para viver entre desconhecidos. À primeira vista, a decisão soa fria ou até injusta. Com o avanço da narrativa, porém, fica claro que essa prática fazia parte da cultura da época: era uma alternativa respeitável para mulheres jovens, uma forma de aliviar as despesas domésticas e, em certos casos, até de ampliar as chances de um casamento adequado.

Anne Brontë constrói Agnes como uma personagem sensível, observadora e moralmente firme. Ao longo de suas experiências como governanta, a protagonista enfrenta humilhações, solidão e a constante desvalorização de seu trabalho, sobretudo por parte das famílias que a empregam. A autora não romantiza essa condição; pelo contrário, expõe com sobriedade a dureza da posição social ocupada por mulheres que, embora educadas, não pertenciam à elite.

O romance se destaca pelo realismo e pela crítica social. Diferente de narrativas mais passionais, Agnes Grey aposta na introspecção e na denúncia silenciosa das desigualdades, revelando como a falta de opções limitava drasticamente a vida feminina no século XIX. A leitura provoca empatia e reflexão, especialmente ao mostrar que a busca de Agnes não é apenas por amor, mas por dignidade e autonomia.

Ao final, o livro se revela menos como uma história romântica e mais como um retrato honesto da condição feminina de seu tempo, o que torna Agnes Grey uma obra discreta, porém profundamente significativa dentro da literatura inglesa.

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