Profissões, Trabalho E O Direito De Sonhar

Por Samara Melo | Janeiro de 2026




Sonhar, no Brasil, nunca foi um ato ingênuo. É um ato político. Antes de qualquer diploma, título ou profissão, existe a urgência da sobrevivência. Existe o corpo que precisa se mover, o tempo que precisa ser vendido, a vida que precisa continuar mesmo quando não há escolha. É nesse ponto que muitos de nós entram no mercado de trabalho: não por vocação, mas por necessidade.

Minha trajetória profissional começou na informalidade. Fui ambulante. Trabalhei de mesa em mesa, de carro em carro, de pessoa em pessoa, oferecendo adesivos, chaveiros, chocolates e água. Depois, novamente ambulante, agora em uma barraca: lanches, noites longas, depois bebidas mais caras, como whisky. As ruas não romantizam ninguém. Elas ensinam rápido, quase sempre pela exaustão e pelo risco. Ensinam a ler pessoas, a reconhecer perigos, a ouvir propostas indecorosas e a entender, muito cedo, o quanto quem precisa trabalhar é vulnerável.

Mais tarde, atuei como plantonista. Vivi a lógica dos turnos extremos, incluindo plantões de até 39 horas seguidas. Tempo dilatado até o limite do corpo, sono fragmentado, alimentação irregular, decisões tomadas no cansaço. Trabalhei também na assistência familiar e como cuidadora de idosos, funções atravessadas por responsabilidade emocional, cuidado constante e uma exigência silenciosa de afeto, paciência e resistência. Profissões essenciais, mas historicamente desvalorizadas, mal remuneradas e tratadas como extensão “natural” do papel feminino, quando na verdade são trabalho duro, técnico e exaustivo.
Mesmo assim, o sonho de uma vida melhor nunca caiu. Ele apenas aprendeu a caminhar cansado.

Meu primeiro salário em um emprego quase formal foi de 300 reais. Não era remuneração digna, era a manutenção mínima da força de trabalho. Dava apenas para ir ao trabalho e voltar. Estudar, naquele momento, tornou-se inviável. Não por falta de esforço, mas porque o sistema impõe uma escolha cruel: sobreviver agora ou planejar o futuro.

Mais tarde, conheci o emprego formal através do comércio. Um salário mínimo em troca de tempo integral, metas abusivas, cobrança constante e desgaste físico e emocional. Mais uma vez, precisei deixar os estudos de lado. O paradoxo se repete: o mercado exige qualificação, mas organiza o trabalho de modo a impedir que ela aconteça.

Troquei as ruas pelo ar-condicionado, vendido como sinônimo de ascensão. Mas conforto térmico não é sinônimo de dignidade. Encontrei ambientes marcados por intrigas, humilhações veladas, falsas promessas de crescimento e uma exploração que se disfarça de oportunidade. Em nome da “experiência”, muitos são usados, descartados e substituídos, presos a salários que não sustentam nem o presente, nem o futuro.

Cada profissão que exerci me ensinou algo essencial: não existe trabalho menor, mas existe exploração demais. Ambulante, plantonista, cuidadora, atendente, trabalhadora formal ou informal — todas revelam a mesma estrutura. O mercado não é neutro. Ele seleciona, adoece, descarta. Não é um espaço para os fracos, porque não foi feito para ser humano.

Quando o trabalhador decide estudar, o conflito se intensifica. Empresas prometem flexibilidade, mas entregam controle. Prometem crescimento, mas pagam mal. Dizem apoiar o trabalhador universitário, mas penalizam provas, estágios e faltas justificadas. Exigem que o funcionário produza como quem não estuda e estude como quem não trabalha.

Os direitos do trabalhador universitário existem no papel, mas raramente na prática. O estudo, que deveria ser caminho de emancipação, vira obstáculo profissional. E quem insiste é rotulado como desinteressado, improdutivo ou “difícil”.

Ao mesmo tempo, o diploma universitário é progressivamente desvalorizado. O conhecimento é tratado como excesso, a formação como detalhe. O mercado nivela trajetórias profundamente desiguais, não por justiça social, mas para reduzir custos, enfraquecer reivindicações e esvaziar o valor do saber. Não se trata de inclusão real, mas de precarização generalizada.
Isso não é acaso. É projeto.

Ainda assim, seguimos. Porque insistir em sonhar, estudar e resistir é uma forma de enfrentamento. Mudar de profissão não é instabilidade: é sobrevivência. Trabalhar e estudar ao mesmo tempo não é falta de foco: é coragem. Querer mais do que o mínimo não é ambição excessiva: é reivindicação de dignidade.

As profissões não dizem apenas o que fazemos, mas revelam o sistema em que estamos inseridos. Conhecer todas as possibilidades não é luxo, é estratégia. E compreender por que tantos ficam pelo caminho é o primeiro passo para não aceitar esse modelo como natural.
Sonhar, aqui, não é ingenuidade.
É resistência consciente contra um mercado que lucra com o cansaço, o cuidado invisível e o silêncio.

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