Samara Melo | Janeiro de 2026
Há algo profundamente contraditório — e perigoso — no sucesso massivo de narrativas que romantizam a mulher como mercadoria. “Ela foi vendida para o CEO”, “A prometida do traficante”, “moeda de troca”. As frases se repetem como slogans de um mercado que aprendeu a lucrar com a submissão feminina travestida de romance.
Não se trata de casos isolados ou de uma coincidência editorial. Esse é, hoje, um dos nichos mais explorados da literatura romântica no Brasil. Obras que acumulam centenas de milhares, às vezes milhões de leituras, enquanto o feminicídio ocupa diariamente as manchetes. A dissonância é brutal.
Essas histórias quase sempre seguem o mesmo roteiro: a mulher sem escolha, sem poder econômico, sem autonomia; o homem violento, rico, criminoso ou emocionalmente inacessível; e a narrativa que insiste em transformar coerção em desejo, abuso em proteção, posse em amor. O corpo feminino vira moeda, prêmio, território conquistável. A violência é suavizada pela estética do luxo, da masculinidade “forte”, do suposto resgate emocional. No fim, o agressor é redimido — a mulher, raramente.
Pergunta-se: por que isso faz tanto sucesso? Parte da resposta está no fetiche, sim — o fetiche da dominação, da desigualdade de poder, da fantasia de ser escolhida por quem manda, por quem controla. Mas há também o escapismo. Em um mundo que exige das mulheres força constante, autonomia, produtividade e lucidez, essas narrativas oferecem uma fuga perversa: a ilusão de que alguém decidirá por elas, cuidará delas, ainda que isso custe a própria liberdade.
O problema é que fantasia não existe no vácuo social. O que se consome molda imaginários, naturaliza comportamentos, educa afetos. Quando a submissão feminina é apresentada como romance desejável, ela deixa de ser apenas ficção e passa a operar como norma simbólica. Quando o “bandido” ou o homem abusivo é erotizado, a violência ganha verniz emocional. Quando a mulher entra no mundo do crime “por amor”, o discurso desloca a responsabilidade estrutural para o campo da paixão, como se isso justificasse tudo.
E então surge a contradição central: como exigir igualdade de gênero em uma sociedade que consome, produz e exporta narrativas onde a mulher é tratada como objeto de troca? Como reivindicar respeito se a própria cultura popular insiste em ensinar que amor é posse, que sofrimento é prova de afeto, que silêncio é virtude feminina? Não se constrói dignidade coletiva romantizando a própria opressão.
Isso não é um ataque à escrita feminina, nem à liberdade criativa. É, ao contrário, um chamado à responsabilidade simbólica. Mulheres sempre escreveram — e escreveram muito — sobre dor, desejo, contradição. A questão não é abordar relações tóxicas, mas glorificá-las sem crítica, sem ruptura, sem consciência do contexto em que essas histórias circulam.
Enquanto a beleza feminina for vendida como produto, o corpo como capital narrativo e a submissão como ideal romântico, a igualdade seguirá sendo um discurso frágil, sustentado apenas no plano teórico. A literatura não é culpada por tudo — mas ela participa, e muito, daquilo que normalizamos.
Talvez a pergunta mais incômoda não seja por que isso vende, mas a quem interessa que continue vendendo. E o que estamos ensinando às leitoras — e leitores — quando chamamos de amor aquilo que, fora das páginas, reconhecemos como violência.
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