Samara Melo| Janeiro de 2026
A história recente da Venezuela não pode ser compreendida apenas como uma crise interna ou como um conflito isolado entre governo e oposição. O que se observa, de forma cada vez mais evidente, é a consolidação de um precedente perigoso na geopolítica latino-americana: a normalização da intervenção, direta ou indireta, de uma potência estrangeira sobre um Estado soberano sob justificativas morais, jurídicas ou de segurança que raramente se sustentam quando analisadas com rigor histórico e sociopolítico. O caso venezuelano expõe, de maneira crua, como países ricos em recursos naturais, politicamente isolados e militarmente frágeis tornam-se alvos preferenciais em um sistema internacional profundamente desigual.
A retórica utilizada pelos Estados Unidos ao longo dos últimos anos — combate ao narcotráfico, restauração da democracia, defesa dos direitos humanos ou contenção de ameaças à segurança regional — segue um padrão recorrente já observado em outros momentos da história contemporânea. Trata-se de um discurso que constrói inimigos convenientes e, ao mesmo tempo, legitima ações coercitivas que violam princípios básicos do direito internacional, como a soberania dos Estados e a não intervenção. Essa lógica não é nova: ela se ancora em uma tradição imperial moderna que substitui a ocupação colonial clássica por mecanismos mais sofisticados de controle político, econômico e territorial.
A Venezuela, detentora das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, ocupa uma posição estratégica central nesse tabuleiro. O colapso econômico e institucional do país não pode ser analisado de forma dissociada do cerco econômico prolongado, das sanções unilaterais e da asfixia financeira impostas ao longo de anos. Essas medidas, frequentemente apresentadas como alternativas “menos violentas” à guerra, produzem efeitos devastadores sobre a população civil e enfraquecem deliberadamente a capacidade do Estado de responder às próprias crises. Em termos práticos, criam o ambiente ideal para justificar intervenções posteriores, apresentadas como inevitáveis ou humanitárias.
Sob a ótica filosófica e sociológica, o que se revela é o exercício da hegemonia em sua forma mais clara. Pensadores como Hannah Arendt já alertavam para o perigo da banalização da força quando ela passa a ser legitimada por narrativas morais seletivas. Michel Foucault, por sua vez, demonstrou como o poder moderno não opera apenas pela violência explícita, mas pela produção de discursos que definem quem é legítimo, quem é ameaça e quem pode ser sacrificado em nome de uma suposta ordem superior. A Venezuela foi convertida, nesse sentido, em um laboratório político: um exemplo do que acontece quando um país rompe com os interesses estratégicos de uma potência dominante sem possuir capacidade militar ou alianças sólidas para se proteger.
É nesse ponto que o debate deixa de ser exclusivamente venezuelano e passa a dizer respeito a toda a América Latina — especialmente ao Brasil. Países que apostam majoritariamente na diplomacia, no direito internacional e na cooperação multilateral, mas que não possuem poder militar dissuasório relevante, tornam-se estruturalmente vulneráveis em um cenário global cada vez mais marcado pela lógica da força. O Brasil, apesar de seu tamanho continental, de sua riqueza ambiental incomparável e de sua importância geopolítica, mantém uma tradição histórica de não confrontação armada e de alinhamento institucional às normas internacionais. Essa postura, embora eticamente defensável, não oferece garantias reais diante de um sistema internacional que demonstra, repetidamente, que regras não se aplicam da mesma forma a todos.
A Amazônia, o pré-sal, o aquífero Guarani, a biodiversidade estratégica e os minerais críticos colocam o Brasil no centro das disputas do século XXI. A experiência venezuelana sinaliza que a combinação entre riqueza natural, instabilidade política — ainda que relativa — e ausência de alianças militares robustas pode ser explorada como justificativa futura para pressões externas crescentes, seja por meio de sanções, ingerências políticas, controle indireto ou, em cenários mais extremos, intervenções abertas. A ideia de que democracias consolidadas estão automaticamente protegidas é uma ilusão confortável, mas historicamente insustentável.
Outros países latino-americanos compartilham características semelhantes às da Venezuela e, portanto, enfrentam riscos comparáveis. A Bolívia, com suas vastas reservas de lítio, ocupa posição central na transição energética global e já foi palco de instabilidade política intensa associada a interesses externos. O Equador e o Peru, ricos em petróleo e minerais estratégicos, sofrem com fragilidades institucionais que os tornam suscetíveis a pressões internacionais. A Nicarágua, isolada diplomaticamente, enfrenta sanções e discursos que pavimentam o caminho para ações mais agressivas sob o argumento da defesa da democracia. Mesmo o México, apesar de sua relação histórica e econômica profunda com os Estados Unidos, permanece vulnerável a intervenções veladas sob o pretexto de segurança e combate ao crime organizado.
O perigo maior reside no efeito dominó que esse tipo de precedente pode desencadear. Quando uma potência demonstra que pode violar a soberania de um país sem sofrer consequências significativas no sistema internacional, o princípio da não intervenção perde força normativa. As instituições multilaterais, como a ONU e a OEA, revelam-se incapazes de conter ações unilaterais, o que enfraquece ainda mais a confiança na ordem internacional baseada em regras. A mensagem implícita é clara: países que não possuem poder militar ou alianças estratégicas sólidas dependem apenas da conveniência política das grandes potências para manter sua integridade territorial.
Do ponto de vista geográfico e territorial, a instabilidade em um país gera impactos diretos e cumulativos sobre seus vizinhos. Crises humanitárias, fluxos migratórios descontrolados, tensões fronteiriças e colapsos econômicos regionais tornam-se inevitáveis. A América Latina, historicamente marcada por desigualdades estruturais e dependência econômica, corre o risco de reviver uma lógica de subordinação explícita, agora adaptada às exigências do capitalismo global e da disputa por recursos estratégicos.
Em última instância, o caso venezuelano expõe uma verdade incômoda: o mundo caminha para uma ordem internacional menos jurídica e mais coercitiva, onde a força volta a ser instrumento legítimo de política externa para quem pode exercê-la. A América Latina, se permanecer fragmentada, diplomática e desarmada — não apenas militarmente, mas também em termos de integração política e estratégica — continuará vulnerável a ciclos sucessivos de ingerência e instabilidade.
A crítica ao ataque e às pressões sobre a Venezuela, portanto, não é uma defesa de governos específicos, mas uma defesa do princípio básico de soberania e autodeterminação dos povos. Ignorar esse debate é aceitar, passivamente, que o destino dos países latino-americanos continue sendo decidido fora de suas fronteiras. E a história demonstra, com clareza suficiente, que quando um precedente é aceito, ele raramente permanece isolado.


Quem não enxerga isso.... Tem que estudar mais história e geografia.
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